A Lagoa da Gávea

Certa vez, conversando com um político, eu falava da necessidade de se fazer mais praças e áreas de lazer em nossa cidade, já tão asfixiada pelo trânsito e pela estreiteza de suas ruas. O político, insensível ao que eu falava, respondeu que o povo não tem tempo para ficar em praças e áreas de lazer, o mundo precisa é de trabalho. Nem me preocupei em explicar que a palavra trabalho tem a sua origem em um termo latino que se referia a um instrumento de madeira, feito com três pontas e que era usado nos processos de tortura. Trabalhamos sim, e muito, porque precisamos, mas o lazer é necessário para a recuperação do corpo e da alma. Dizem que até Deus, de muito pensar e trabalhar para construir este mundo “descansou” no sétimo dia. Por que não nós, frágeis seres de carne e osso…

Dia 21 do mês que passou, a nossa cidade recebeu mais um espaço para uso da população. Foram inauguradas as obras da Lagoa da Gávea, denominada oficialmente “Parque Vera Moreira Rodrigues”, uma homenagem à nossa saudosa Verinha.

As áreas adjacentes à Lagoa já vinham sendo transformadas em um espaço de lazer diferenciado em nossa cidade, há muito tempo. O então Prefeito Paulo Fraga teve a visão de desapropriar o grande espaço, onde foi implantado o Parque Marlière. Posteriormente, o Prefeito Paulo Carvalho construiu naquele local o “Parque Monteiro Lobato”, dotando o espaço de uma grande variedade de instrumentos de lazer para as crianças, incluindo brinquedos de madeira, pista para bicicletas, pistas para caminhadas e até um mini Jardim Zoológico (o que hoje já não seria aceito pois é condenável manter animais em cativeiro). Foi uma pena que algumas administrações tivessem deixado grande parte do local em abandono ou desfigurado um pouco os seus objetivos. A área toda, que também é integrada pelo “Parque de Exposições Agropecuárias e Industrial Lael Varella”, da nossa cidade, constitui-se em um dos maiores centros de lazer e de preservação ambiental do nosso Estado.

A Inauguração em dias passados do “Parque Vera Moreira Rodrigues”, vem complementar aquela imensa área de lazer, para benefício de toda a população. O Parque da Lagoa, como é popularmente chamado, ficou excelente. No último dia 29, feriado em nosso município, a frequência ao local foi muito grande. Pessoas caminhando ou correndo em volta da lagoa, famílias espalhadas pelo imenso gramado fazendo os memoráveis piqueniques e muitos, da idade minha, caminhando no ritmo que os anos permitem e a moderação aconselha, sob as sombras das árvores, desfrutando o ar puro e ameno da manhã. Lembrou-me, (guardando as devidas proporções em tamanho) a Quinta da Boavista, no Rio de Janeiro, nos finais de semana. Até que comportaria colocar na Lagoa da Gávea os barquinhos a pedal, chamados “pedalinhos”, para a diversão da garotada… e dos adultos.

O Parque da Gávea, precisa e deve ser conservado, não só pelo Poder Público, mas principalmente pela população que o frequenta. Notamos, pelo menos nesses primeiros dias de funcionamento, pessoas com cães sem a corda-guia, o que às vezes amedronta muitos frequentadores. Outro problema que deverá ser resolvido é o grande número de cães de rua no local que fazendo suas necessidades no gramado dificultam ou inviabilizam o uso dos gramados para a prática dos piqueniques e, de certo modo, comprometem a saúde das crianças que brincam na extensa grama do Parque.

As instalações sanitárias, também estão excelentes e vamos procurar conservá-las, pois afinal de contas são para o nosso próprio uso.

Parabéns à Administração Municipal e sua equipe pela excelente obra entregue à população. Vamos usá-la e zelar pela sua conservação. Afinal, o que é público, não significa que não seja de ninguém, pelo contrário, é algo que é de todos…

Que o sapateiro não passe além do sapato

Dizem que um dia um pintor colocou em uma Galeria de Arte um dos seus quadros. Era o retrato de um homem sentado à porta de uma casa com uma das pernas cruzada sobre a outra. Um sapateiro, que visitava a galeria, observou atentamente o quadro em exposição e depois de muito observar e meditar, virou-se para o pintor autor da obra, que estava ao lado e disse:

– Esse quadro contém um erro! Olhe só o salto do sapato, ele está gasto na parte da frente, ora, o salto gasta de trás para a frente quando se pisa e este está mostrando o desgaste ao contrário!

O pintor, atento à observação do sapateiro, concordou com ele e, imediatamente, de posse do seu pincel e tintas, corrigiu o erro. O sapateiro, cheio de si, olhou orgulhoso para os demais expectadores e para a sua família que o acompanhava e disse ao pintor:

– Observando bem, a gente pode notar que há um problema também com a pintura dos braços!

O pintor, guardando os seus instrumentos de pintura, olhou severamente para o sapateiro e disse:

– Agradeço a sua primeira observação mas que o sapateiro não passe além do sapato!

Assim são aquelas pessoas (e são muitas nesse mundão de gente) que opinam sobre assuntos dos quais não têm o mínimo conhecimento. E falam ostentando uma autoridade que não têm sobre aquilo que falam e justamente por isso caem no ridículo.

Nos últimos dias de abril deste ano, o Lula, da cela onde está preso, concedeu uma entrevista aos jornais “El País” e “Folha de São Paulo” e durante a tal entrevista o Lula fez uma crítica depreciativa ao escritor Euclides da Cunha e a sua obra “Os Sertões”. Lula afirmou que um canal, chamado Paz e Bem, tem um curso recontando as histórias e mostrando as mentiras que Euclides da Cunha contou sobre Canudos e que ele, Lula, havia feito um “curso de oito aulas” naquele tal canal. Imaginem que conhecimento o Lula deve ter adquirido naquelas oito aulas para se transformar em crítico literário e doutor em Euclides da Cunha. A História pode e deve mesmo ser vista sob vários ângulos para que possamos nos aproximar ao máximo da verdade. Mas isso demanda pesquisa e análise crítica apurada, isenta de ideologias e pautada unicamente nos métodos científicos da historiografia. Um pré-requisito que Lula não possui.

O problema é que papel, microfone e agora também a internet, aceitam tudo. Não existe limites não só para o conhecimento, mas também para a imbecilidade.

É óbvio que uma linha de esquerda tentou transformar o Antônio Conselheiro, da Campanha de Canudos, em revolucionário, tentando arrancar-lhe a pecha de “Fanático Religioso”, como era conhecido. Mas isso foi mais fruto da linha esquerdizante das nossas Universidades Públicas. A mesma linha que elogiou terroristas e assaltantes de Bancos do passado tentando transformá-los em defensores da Democracia. Mas isso é outra história…

Já romantizaram também a trajetória de assaltos e mortes do Virgulino, o Lampião, tentando transformá-lo em herói, atendendo a uma conveniência ideológica. É por isso que muitos professores de História, ideologizados pelas linhas das Universidades Públicas, demonizam Tiradentes como estando a serviço das “elites”, tentando tirar-lhe o mérito de herói nacional. Mas há alguns anos muitos desses professores se deslocaram até às Capitais para comemorarem o centenário do herói (?) cubano José Martí.

A sorte é que Euclides da Cunha está anos luz acima da opinião de um Lula que, como o sapateiro da história, quis ir além do seu conhecimento sobre sapato e se aventurar como crítico de Artes Plásticas. O Lula, como sempre, perde as oportunidades de ficar calado. Deveria falar sobre os assuntos que domina, afinal, qualquer pessoa tem algum tipo de conhecimento em que é autoridade. Uma antiga lavadeira em minha casa, mesmo a despeito da sua precária instrução,  sabia se iria chover melhor do que qualquer serviço de meteorologia. Quando não se domina um assunto é melhor seguir o sábio ditado: “o silêncio é de ouro”.

O desapreço pela ética

A palavra Ética, como tantas outras palavras, talvez pelo excesso de uso, acabou comprometendo o seu significado através dos tempos. Fala-se em ética como se fala em amor, sem a mínima atenção ao seu real significado. Na política brasileira, pelo menos em grande parte daqueles que a exercitam, é muito comum  esses desacertos.

Assim são as críticas que a eterna e recalcada esquerda faz ao juiz Sérgio Moro, alegando que ele teria sido antiético quando aconselhou alguns Procuradores a se esmerarem na busca de provas para a condenação dos corruptos nas ações da Operação Lava Jato.

As ações do Meritíssimo Juiz Sérgio Moro foram sempre elogiadas não só pela maioria esmagadora da população brasileira, mas também internacionalmente, pois ele foi um dos baluartes para o sucesso da grande operação moralizadora em nosso país e graças à operação e em grande parte graças a ele, estão hoje na cadeia as principais lideranças de uma linha política que institucionalizou a corrupção, banalizou os princípios éticos e dilapidou o nosso país durante quase vinte anos. Mas a memória popular às vezes é falha e as pessoas se esquecem facilmente daqueles que em passado recente tanto mal fizeram ao nosso país.

Mas beneficiados por esse esquecimento, eles estão aí como vírus em estado latente, ávidos para voltarem ao poder e sangrar os parcos e últimos recursos que ainda restam em nosso país. A tática é sempre a mesma: lutar contra qualquer medida que possa tirar o país do fundo de um poço onde eles mesmos o colocaram. A filosofia para conquistarem o poder é sempre a mesma usada no passado: quanto pior melhor.

Por que aprovar a reforma da Previdência se ela pode solucionar a maior parte dos problemas nacionais, principalmente o fantasma do desemprego? O caos sempre foi o passaporte de entrada das esquerdas para o poder. Por isso, jamais o conquistaram em países social e economicamente estáveis. A esquerda brasileira valeu-se, na década de 1960 de uma crise social e econômica provocada pela renúncia de Jânio Quadros e agravada ao extremo pela incompetência do desastroso “desgoverno” do Jango. Foi o quadro ideal para os Zés Dirceus, os Genoínos, os Lamarcas e Marighelas arrebitarem as tangas para tentarem conquistar o poder e transformar o nosso Brasil em mais uma ditadurazinha satélite da URSS.

O grande problema, (talvez o maior deles) foi que, além da incompetência comum aos ideólogos de esquerda, havia a briga entre eles pelo poder. É notória, quando se pesquisa fatos daqueles tempos dos “terroristas de araque”, a facilidade e constância de mudanças de lado dos chamados “terroristas”. Basta que se veja a quantidade de siglas e linhas existentes e como se passava de uma linha para outra, quando um eclipsava o poder do outro. Era o PCB, o PC do B, o MR 8, o POLOP, o COLINA, o VPR, o VAR-Palmares. Em nenhum país do mundo onde se instalou o comunismo houve tantas siglas como no Brasil.

O problema era mesmo a disputa pela hegemonia. Um poderzinho, pois na realidade nenhum desses grupos significou alguma coisa em termos de poder. Mas o pessoal transitava de uma para outra dessas organizações à medida em que se descontentava com quem estava no comando. E como romantizavam mudando de codinomes! A Dilma Roussef já foi “Estela”, “Luíza”, “Patrícia” e Wanda. O José Genoíno já foi “Geraldo”. O Franklin Martins já foi “Waldir”, “Francisco”, “Rogério” e até “Comprido”. O Fernando Pimentel chegou a ser “Oscar”, “Chico” e “Jorge”. Pior foi o Zé Dirceu que além de ter sido “Daniel”, fez uma plástica no México e trocou o nome para Carlos Henrique Gouvea de Mello.

Mas nada disso adiantou. Um dia, depois de anistiados e instalados no poder, tiveram que mostrar a verdadeira face e fizeram o que fizeram com o nosso país. Depois a amnésia popular passou como num passe de mágica e o mesmo povo os enxotou do poder.

A memória é sempre um bom instrumento para o aperfeiçoamento da Democracia e conservação dos ideais liberais.

Oftalmologistas do Calçadão

Há muitos anos, antes das fiscalizações dos Conselhos que autorizavam o exercício das profissões, existiam os chamados “práticos”, pessoas que aprendiam ao lado de outro profissional durante algum tempo e depois tornavam-se profissionais na área. Assim, tínhamos os “Farmacêuticos Práticos”, muitos deles, ou a maioria, com grande conhecimento e experiência na área. Além de conhecedores das drogas manipuladas e exímios “decodificadores” das letras dos médicos para entenderem os complicados nomes dos componentes químicos dos remédios que iam manipular, possuíam um profundo conhecimento dos remédios da flora, fabricados com folhas e raízes de diversas plantas. Os Farmacêuticos Práticos, principalmente nos pequenos lugarejos de parcos recursos médicos, assumiam muitas vezes as funções de parteiros para aquelas mulheres simples que, àquela época, pariam os seus filhos em sua própria casa. Os Farmacêuticos, tanto os práticos como os formados em bancos de Universidades, receitavam até óculos. Lembro-me da “Pharmácia Paschoal”, do Sr. Bernardino (formado em Faculdade), com o seu balcão repleto de óculos com lentes de diversos graus. O cliente ia experimentando um a um, até encontrar aquele que lhe proporcionasse uma visão mais nítida das letras que eram postas à sua frente. Esses Farmacêuticos costumavam ser, como os padres locais, os pontos de apoio das comunidades em que viviam. Por isso muitos deles foram expressivos líderes políticos locais.

Paralelamente existiam também os “Dentistas Práticos” que, após aprenderem o ofício por algum tempo, exerciam a sua profissão, tanto em consultórios fixos, como atuando como profissionais ambulantes, percorrendo fazendas e lugarejos com o seu limitado equipamento (normalmente espátulas, pinças e boticões, pois não se usava anestesia), atendendo os seus clientes. O nosso Tiradentes, por exemplo, foi um desses práticos, embora tenha ficado na história como o protomártir da nossa Independência.

Existiam também as “Professoras Leigas”, sem diplomação para o cargo mas com o conhecimento necessário para transmitir conhecimentos naquelas escolas rurais tão carentes de professores. Algumas, meigas e pacientes com os alunos, outras, com a pedagogia da régua grossa no lombo ou a temível palmatória, que não tive o desprazer de conhecer ou experimentar. Das “reguadas” tenho boas lembranças…

Mas eu queria falar mesmo era dos “Oftalmologistas do Calçadão”. Os que citei atrás foram frutos do tempo, de uma época em que, existindo poucos centros de formação, esses profissionais cumpriam um relevante papel nas comunidades carentes daquelas profissões. Muitos deixaram o seu nome na memória das cidades ou comunidades em que viveram graças aos bons serviços que prestaram. Mas o que causa espanto é a gente ver nos dias atuais, nos calçadões de cidades maiores, aqueles “oftalmologistas” com uma banca repleta de óculos com lentes dos mais variados graus e as pessoas “experimentando” à procura daquele que lhe proporcione uma melhor visão. A desculpa é que as pessoas têm interesse apenas nas armações, que ficariam hipoteticamente mais em conta do que uma armação de marca em uma Ótica. Mas o fato é que muitas pessoas acabam usando mesmo aqueles óculos, desconhecendo se o grau da lente que necessita é aquele mesmo ou, principalmente, se é o mesmo para cada um dos seus olhos. É uma pena que ainda seja permitida a venda de óculos de grau em bancas de rua sem uma fiscalização do órgão competente.

O tiro saiu pela culatra

Um tiro sair pela culatra, ou seja, pela parte traseira de uma espingarda, só seria possível nos msoquetes do séc.XVIII, cuja munição e pólvora eram carregados pelo mesmo orifício, que era o cano da arma. Mas mesmo assim, a expressão “O tiro saiu pela culatra” consagrou-se como sendo a tomada errada de uma decisão que provoca uma consequência contrária àquela que se pretendia.

Assim foi a pífia passeata organizada por alguns professores de Universidades Públicas e alunos “ideologizados” nos bancos escolares, contra o que eles entendiam como corte de verbas nas Universidades. O despreparo de alunos e professores, preocupados mais com o repasse de ideologia do que com a qualidade da educação, impede que eles entendam a diferença entre “corte de verba” e “contingenciamento”; impede que eles entendam que,  pelo contrário, as Universidades Públicas brasileiras têm verba em excesso, o que não têm é competência e honestidade para administrar os vultosos recursos que lhes são destinados, fruto do sacrifício da população que paga os seus impostos; impede que eles entendam que o Ensino Fundamental, principalmente, está um caos; impede que eles entendam que as nossas  Universidades Públicas gastam imensamente mais do que grandes Universidades norte-americanas ou europeias que, administradas por competentes e íntegros Conselhos, já propiciaram centenas de prêmios Nobel nos mais variados campos da ciência e da tecnologia, enquanto as nossas Universidades Públicas ainda estão distantes anos luz de cumprirem o verdadeiro papel de uma “Universitas”. As nossas Universidades se tornaram peritas em ideologizar alunos nas ultrapassadas linhas de esquerda, como se  nos dias atuais ainda tivesse algum significado ensinar os pensamentos naftalínicos de Marx, de Engels ou de Gramsci. Mas em que sentido a pífia passeata foi “um tiro pela culatra”?

É que a resposta veio imediata. Não por grupos organizados e ideologizados à custa do dinheiro público, mas de uma forma espontânea e com a participação de diversos setores da população. Os motivos? Os motivos foram vários. Primeiro um apoio maciço ao projeto do Governo Federal de empreender as reformas que o nosso país precisa, principalmente a da Previdência; segundo, uma reação à esquerda retrógrada que por quase duas décadas dilapidou o nosso país, solapando as nossas finanças com o maior sistema de corrupção já ocorrido no planeta; uma esquerda que tem seus principais líderes atrás das grades, condenados por corrupção e formação de quadrilha. Essas foram algumas das motivações das passeatas promovidas pela população brasileira em todas as capitais  e em grande parte das cidades brasileiras. A nossa Muriaé não ficou de fora dessa manifestação nacional. O tiro da esquerda saiu mesmo pela culatra e chamuscou de pólvora a cara dos esquerdopatas.

Apenas um problema induz a uma crítica mais aguçada. Durante as passeatas da população, muitos cartazes eram veiculados pedindo o “fechamento do Congresso e do Supremo Tribunal Federal”. Sem dúvida, vivemos em uma Democracia Liberal e é livre a expressão de pensamento, mas justamente por sermos uma Democracia Liberal temos a obrigação de defender as nossas Instituições e não de fechá-las. O Poder Legislativo, tanto federal, Estadual ou Municipal e as Cortes de Justiça são instrumentos fundamentais para a existência de uma democracia e a limitação de quaisquer tentativas de poder discricionário. Mas o que faz as pessoas pregarem o seu fechamento? Talvez seja a insistência de alguns membros dessas instituições, ou talvez muitos, de não ouvirem a voz da população que deseja e exige a moralização do país. Mas isso não é motivo para abandonarmos as nossas convicções democráticas. A solução deverá vir sempre do aperfeiçoamento das nossas instituições pelo processo democrático do voto popular, um voto consciente capaz de impedir os maus políticos de galgarem o poder. Só assim poderemos moralizar o nosso país. Aí as nossas escolas, sem partido e sem ideologização, poderão formar as futuras gerações em conhecimento humanístico e científico, como qualquer cidadão de bem deseja.

Um coração dividido em duas pátrias

Saímos de Paris com destino a Rouen às 9,17 da manhã. É interessante como os horários de partida e chegada dos trens por aquelas bandas é sempre em frações de horas e as saídas e chegadas ocorrem rigorosamente no horário. Assim, chegamos ao nosso destino às 10,47, cerca de uma hora e meia depois. Embarcamos na histórica Estação de “St. Lazare” na capital francesa e desembarcamos na Estação principal de Rouen, a capital da Normandia.

A Normandia fica a noroeste de Paris, bordejando o Mar do Norte. Foi uma região invadida há centenas de anos por Vikings, Noruegueses e Suecos, que eram chamados os homens do norte ou “norsemen”, na língua nórdica, que acabou por dar origem ao gentílico normando e o próprio nome da região.

A Normandia é hoje famosa pela produção de seus queijos, considerados os melhores do mundo, principalmente o famoso Camembert, feito com leite cru (não pasteurizado), das famosas vacas normandas.

Mas o que nos levou a visitar Rouen foi o fato de ter sido ali o local em que a jovem e valente Joana D’Arc foi queimada viva em uma fogueira, após ter sido encarcerada em uma torre que hoje leva o seu nome. Foi queimada na velha Praça do Mercado, onde se ergue hoje uma estátua em sua homenagem. Havíamos visitado, em uma viagem anterior, a histórica cidade de Blois, no Vale do Loire, onde a jovem Joana D’Arc organizou as suas tropas para atacar Orlèans.  Capturada em 1430 em Compiègne, a jovem foi levada para Rouen e entregue aos ingleses que à época dominavam a região da Normandia e esses, por sua vez, entregaram Joana ao Clero local que a condenou ao martírio da fogueira, aos 19 anos. Rouen, portanto, fecha o círculo entre o início e o fim da heroica aventura da jovem francesinha que séculos depois foi absolvida pela Igreja e elevada à condição de Santa Joana D’Arc, hoje venerada pelos franceses.

Mas Rouen tem muito mais história para nos contar. É banhada pelo rio Sena que serpenteando da região central da França até o norte do país, acaba desaguando no mar do norte onde dissolve sua identidade nas frias águas daquele mar. As centenárias casas de enxaimel de Rouen, com traves de madeira cruzadas e os vãos preenchidos por tijolos, espalhadas por seu centro histórico são uma prova do apreço do povo local por sua tradição. O famoso “Gros Horloge”, um relógio astronômico inaugurado no século XIV, é outra atração histórica da cidade.

Mas sem dúvida, a grande atração da capital normanda fica mesmo por conta da sua imponente Catedral de “Notre Dâme de Rouen”, um verdadeiro monumento à cristandade, que sofreu violentos bombardeios quando da invasão dos aliados na Normandia, restando nos blocos de granito da sua fachada as marcas das metralhadoras ponto 50 da Segunda Grande Guerra. A parte românica da majestosa Catedral foi construída no ano de 1030 e sua parte gótica em 1.145, mas a obra foi efetivamente concluída em 1506, apesar do seu magnífico pináculo de ferro fundido ter sido colocado em 1876 elevando a altura da Catedral a 151 metros. O impressionante de uma catedral gótica são as suas torres pontiagudas que, como finíssimas agulhas quase que se dissolvem no céu, oferecendo um espetáculo de transcendência àqueles que a contemplam.

Fiquei intrigado com o fato de estar ali, na nave daquela Catedral o túmulo com os restos mortais do rei Ricardo I da Inglaterra, o famoso “Ricardo Coração de Leão”, assim conhecido por sua coragem nos campos de batalha. Tive que pesquisar pois não entendia o fato de um rei inglês ser sepultado em solo estranho à sua pátria. Acabei descobrindo que o famoso rei inglês era um admirador profundo daquela região, que à época pertencia à Inglaterra e passava muito mais tempo na Normandia do que no seu próprio país. Diz a lenda que o rei gostava mais de se comunicar em francês do que em inglês. Mas por que o túmulo de Ricardo I na Catedral de Rouen ?  Ricardo Coração de Leão, que viveu de 1.157 a 1199, foi sepultado na Abadia de Fontevraud, a 260 km de Rouen mas, a seu pedido, apenas o seu coração foi sepultado na Catedral de Rouen, como preito à terra que tanto amava.

Os mistérios de um ditador

Os mistérios que cobrem a vida de uma celebridade são desvendados muitos e muitos anos depois de sua morte, principalmente os mistérios que envolvem a vida de um ditador. Foi assim com Stalin, cujas minúcias sobre seu regime de terror só foram desvendadas depois que o governante russo Mikhail Gorbachev, com a Glasnost e a Perestroika, abriu os arquivos da extinta URSS ao mundo civilizado. Só assim ficamos sabendo que os mais de 150 mil oficiais do Exército polonês fuzilados e sepultados em covas coletivas, foi obra de Stalin e não do Exército alemão. Do mesmo modo, ficamos sabendo das atrocidades da ditadura hitlerista.

No que se refere à ditadura de Fidel Castro (de 1959 a 2008) o desvelamento dos mistérios está sendo mais breve do que se esperava, pois muitos jornalistas já pesquisavam sobre os segredos do ditador cubano e as controvérsias sobre sua vida particular.

O primeiro grande problema é o verdadeiro nome do ex-ditador cubano. Segundo fontes do governo cubano seu nome era Fidel Alejandro, mas ele possui diversas certidões de nascimento em virtude de sua condição de filho ilegítimo, por isso, teve diversos outros nomes. A historiadora Cláudia Furiati, em um livro publicado em 2003, afirma que na certidão de batismo de Fidel, de 1935, ele foi registrado como Fidel Hipólito Ruz Gonzales. Já em 1938 consta outro nome: Fidel Cassiano Ruz Gonzales e em 1941, quando foi finalmente reconhecido pelo pai, passa a se chamar Fidel Alejandro Castro Ruz, nome pelo qual ficou conhecido até a sua morte.

Mulherengo ao extremo, teve muitos filhos, cerca de onze, entre legítimos e ilegítimos, segundo a jornalista americana  Ann Louise Bardach. A jornalista ainda inclui outros “herdeiros” não confirmados, como um homem chamado Ciro Redondo que teria sido fruto de uma breve relação do líder cubano. A mesma jornalista afirma ainda que em 2007 uma desertora do Serviço de Inteligência cubano disse ter tido um filho com Fidel nos anos 70.

Quanto à fortuna do ditador, a revista Forbes passou a incluí-lo entre os mais ricos a partir de 1997 e em 2006 o líder cubano aparece na citada revista com uma fortuna avaliada em USD 900 milhões (R$ 3,1 bilhões). Com o tempo, muitos outros segredos ainda virão à tona.

Por ocasião da morte do Ditador cubano, em 2016, fiz um poema, não em sua homenagem, mas para os milhares de cubanos mortos no “paredón” ou exilados do país.

 

A MORTE DO TIRANO

(25/11/2016)

Adellunar Marge

 

O tirano destruiu os ideais de muitos,

dobrou-lhes o corpo com a tortura, subtraiu vidas

no “paredón” ensanguentado.

Gestou, na crueldade das suas ações, multidões de órfãos e viúvas

ou matou, na semente da juventude, os filhos e esposas que seriam…

 

O tirano, ensandecido pelo poder, implantou o medo e o terror

no coração dos homens.

A melodia que embalava os sonhos na ternura dos boleros,

emudeceu na ilha.

 

O tirano espojou-se no sangue de gerações mas não derrotou

a morte.

Um dia ela chegou e o encontrou envelhecido de corpo e

de alma

e o tirano sucumbiu.

 

Já estava morto, quando morreu.

Os que sobreviveram à sua tirania bailaram à luz do luar

ainda longe da ilha,

com a esperança de voltar…

Afinal, quem cortou a orelha de Van Gogh?

Van Gogh foi e ainda continua sendo, através das obras que deixou, uma das maiores expressões da pintura mundial. Foi classificado como um representante pós-impressionista na pintura.

Vincent Willen Van Gogh nasceu em Zundert, Holanda, em 30 de março de 1853 e cometeu suicídio (versão às vezes contestada) em Auvers-Sur-Oise, França, em 29 de julho de 1890. Sua obra foi bastante influenciada pelas pinturas de Claude Monet, Rembrandt e Cézanne, para citar os mais importantes.

Durante seus trinta e sete anos de vida, Van Gogh foi uma alma atormentada. Sofria de Transtorno Bipolar ou maníaco depressivo, ansiedade, depressão e tinha ataques frequentes de epilepsia. Além de todos esses problemas, Van Gogh era usuário dependente do absinto, uma bebida de elevado teor alcoólico, tóxica e de uso muito comum entre artistas, escritores e poetas naquela época. Sua base de apoio psicológico sempre foi o irmão Teo, que atenuava suas crises.

O conjunto de todos esses problemas que transformaram a vida de Van Gogh em um drama existencial, não foi empecilho para que ele se transformasse em uma das maiores expressões nas artes plásticas. Sabia traduzir, como ninguém, as “impressões” interiores que tinha do mundo que o cercava, através das cores de suas tintas e da magia de seu pincel.

Apesar de nunca ter vendido nenhuma de suas mais de duas mil obras, enquanto vivo, seus quadros atravessaram o tempo, imortalizaram o pintor e atingem hoje, nos grandes leilões de empresas famosas como a Sotheby’s, por exemplo, milhões de dólares quando são leiloadas. Em 2015, por exemplo, seu quadro “L’Allée des Alyscamps” foi vendido por 66 milhões de dólares e o “Portrait de Dr. Gachet”, pintado em 1890, ano da sua morte, por 82,5 milhões de dólares.

Mas eu nomeei esta crônica como “Afinal, quem cortou a Orelha de Van Gogh”.

Ninguém desconhece a história de Van Gogh, em uma de suas crises depressivas, ter cortado parte da sua orelha com uma navalha e ter levado o pedaço que cortou para dar de presente à Rachel, uma prostituta sua amiga. Depois, Van Gogh, que gostava de pintar auto-retratos, pintou-se com um curativo cobrindo a sua orelha cortada. Mas segundo os escritores e pesquisadores alemães Hans Kalfmann e Rita Wildegans, no polêmico e recente livro “A Orelha de Van Gogh: Paul Gauguin e o Pacto de Silêncio”, o que pouco gente sabe é que tem muito mistério ainda por trás dessa história.

Quando Van Gogh mudou-se da Holanda para a França, encantou-se com as manhãs claras daquele país, principalmente em seus dias de Verão. As cores das flores e da vegetação, acentuadas pela luz brilhante do dia, entorpeciam o pintor e ele traduzia aquele sentimento para os quadros que pintava.  Segundo os autores do livro, certa vez, quando Van Gogh estava em Arles, na Provence, vivendo na famosa “Casa Amarela” da Praça Lamartine, convidou o seu amigo, também consagrado pintor, Paul Gauguin, que viveu ali, trabalhando com Gogh de outubro a dezembro de 1888. Durante esse período, precisamente no dia 23 de dezembro,  os dois pintores tiveram uma séria discussão por causa de uma disputa sobre a prostituta Rachel. Foi quando Van Gogh empunhou uma navalha agressivamente e Gauguin, que era um exímio esgrimista, desembainhou a sua espada para se defender e, talvez acidentalmente, acabou decepando um pedaço da orelha de Van Gogh. Para que Gauguin não fosse para a cadeia e Van Gogh não fosse para o hospital, fizeram o tal “Pacto de Silêncio”.  Segundo Hans Kalfmann, Van Gogh deixa uma pista na carta que enviou ao irmão Teo, quando afirma: “Felizmente Gauguin não estava armado com metralhadoras ou outras armas de guerra perigosas…”. Resta aguardar novas especulações para decifrarmos mais esse enigma na conturbada vida do pintor holandês.