Moro, o Hércules da Justiça

O juiz Sérgio Moro é uma grata surpresa nesse mar de lamas instaurado pelo lulopetismo. Homem destemido e extremamente competente, Moro tem enfrentado com bravura a máquina de corrupção implantada na administração petista. Ponto a ponto, ele foi chegando aos cabeças do sistema e agora, finalmente, chegou ao “barbudo”.

A corrupção se institucionalizou de tal forma nesses três últimos governos no Brasil, que se transformou em um câncer de difícil cura. Os membros têm que ser extirpados para que o paciente, no caso o nosso Brasil, não morra de “falência múltipla dos órgãos”, como dizem os boletins médicos nos atestados de óbito. Nunca se roubou tanto em um país. O roubo na Petrobras chega a ser maior do que o PIB de alguns países da América Latina. Mas o pior, o mais imoral, é assistirmos a uma meia dúzia de desesperados tentando insuflar o povo contra a Justiça e proteger o Lula das investigações e das consequências.

Em suas bravatas e discursos demagógicos, o “cara” afirma que não é dono de nada, não sabe de nada, não roubou nada, só ganhou “presentes”. Segundo apurações da Justiça, levou do palácio do Governo para o “sítio que não era seu” e para o “apartamento do Guarujá que também não era seu”, mais da metade da adega de vinhos do palácio. E posso garantir que lá não tinha vinho barato não. Era de “Romanée Conti” e “Almaviva” para lá…

Afirma que ganhou uma fortuna fazendo palestras. Ora, vejam só! Fazendo palestras…! As reformas milionárias do sítio “que não é dele” e do apartamento “que não é dele” foram feitas por empreiteiras “generosas” e “desinteressadas”, é claro.  E pensar que o motivo maior do impeachment do Collor foi uma pintura na Casa da Dinda e um Fiat Elba… isso mesmo, um Fiat Elba.

O círculo foi sendo apertado pelo honrado juiz Sérgio Moro e as cabeças foram rolando, como na guilhotina da Revolução Francesa. As delações premiadas passaram a ser pedras incômodas nos sapatos dessa gente. Agora virão as delações premiadas das empreiteiras e o bicho vai pegar.

É necessário, é urgente, que se acabe com essa bandalheira implantada no Brasil nesses três últimos governos. É necessário punição severa, devolução dos recursos subtraídos, e, acima de tudo, cadeia neles.

Mas já está passando da hora de se dar um basta em alguns baderneiros de plantão que estão incitando o povo a protestar contra a ação da Justiça. São pessoas revoltadas, mal amadas, vítimas talvez de dramas pessoais que as fizeram odiar o mundo e as pessoas. Isso é uma afronta às nossas instituições. Temos um governo fraco, incompetente e contaminado pela corrupção, mas ainda somos um Estado, um país habitado por um povo que tem esperança de derrotar essa imoralidade. Que o senhor Lula enfrente a Justiça, tente provar a sua inocência, mas não use os microfones para inflamações demagógicas.

O juiz Sérgio Moro tem o apoio da maioria da população ordeira e honrada do país. Tem pela frente trabalhos mais difíceis do que aqueles enfrentados por Hércules, na Mitologia, mas leva uma vantagem. Hércules foi um mito criado pela inventiva imaginação grega, enquanto que o competente juiz Sérgio Moro é real, íntegro e desempenha o papel que todos os cidadãos honrados deste país esperam dele.

O gavião inesperado

Na minha rua não se vê outros pássaros que não sejam rolinhas, algumas maritacas ocasionais, os indefectíveis canários-da-terra e um casal de sabiás, que vive rondando a minha jabuticabeira, à espera dos seus frutos. Nenhum outro pássaro costuma aparecer na minha rua. Ah, ia me esquecendo. Um dia apareceu por aqui um urubu-rei, de passagem, que pousou por umas poucas horas para descansar, na grade do jardim de um vizinho. Depois, foi-se embora.

As escandalosas maritacas (um casal) vieram por vontade própria e externam sua gritaria, pousadas nos fios ou nas antenas das casas. As rolinhas vieram para se aninharem na densa folhagem da jabuticabeira, local ideal para a construção dos seus ninhos. O casal de sabiás veio para encantar as manhãs e as tardes da nossa rua. Mas os canários-da-terra, esses se apossaram da rua, fazendo seus ninhos nos beirais dos telhados, nos ocos dos postes, por um motivo óbvio: vieram atraídos pela alimentação farta das canjiquinhas de milho colocadas pelo saudoso vizinho Adson Portes em seu jardim, generosidade mantida por seus familiares. Para se fartarem da generosa ceia, frequentam o jardim do Adson da madrugada ao entardecer, estendendo sua mesa de refeição até a calçada da Oficina do José Carlos, coberta com a farta ração de fubá. Retribuem a gentileza com o seu belo e generoso canto.

Há vários anos, a nossa rua desfruta dessa agradável rotina, sob o encanto das cores e do canto desses pássaros. E eles já se acostumaram tanto com a presença das gentes, que nem se assustam mais quando passamos.

Acostumamos a ouvir o dia todo a algazarra dos cantos  e trinados, que só se encerram com o final da tarde, sol já posto, quando o costumeiro som é substituído pelos leves piados noturnos, uma cantiga de ninar, talvez, para os filhotes.

Mas ontem foi um dia diferente. A manhã começara com a cantoria normal de canários, sabiás, rolinhas e até das maritacas faladeiras, um verdadeiro concerto de múltiplas vozes, emoldurado pelo bonito azul do céu.

Mas, de repente, o silêncio. Os pássaros emudeceram como que por encanto. Depois, voaram em direções distintas, esconderam-se em telhados, no espesso da folhagem das árvores e nem um pio se ouviu mais. Intrigado, cheguei à janela para saber o porquê de tanto silêncio. Foi quando vi o enorme pássaro de bico adunco, olhos profundos e severos, deslizando em rasantes voos com o seu aterrorizante canto de guerra. Nenhum pássaro ousaria enfrentá-lo. O gavião pousou no alto da jabuticabeira e depois, em pulos comedidos e olhar atento, foi percorrendo os galhos, adentrando as folhagens. Enquanto passava de galho em galho, ia soltando seus gritos lancinantes. Não se ouvia qualquer sinal dos pássaros.

O poderoso gavião voou para o alto do oiti, depois para o cimo do prédio mais alto da rua, olhou aguçadamente para todas as direções e partiu num voo veloz, como o que o trouxera, para bem longe dali.

Ainda se passou aproximadamente um quarto de hora até que os pássaros, ressabiados ainda, começassem a voltar aos hábitos da rua. As maritacas, as primeiras a baterem em retirada, foram as últimas a voltar, o que confirma o ditado: “Quem fala muito, valente não é”.

O celular

O celular veio para mudar hábitos, sem dúvida. A grande variedade dos aparelhos de telefonia móvel, aliada aos recursos cada vez maiores da internet, construíram uma sociedade diferente. Nem pior nem melhor, apenas diferente.

As relações pessoais, antes caracterizadas pela presença física, pelo “tête a tête”, em que cada palavra era acompanhada por um olhar ou um gesto próprio, agora são intermediadas por poderosos satélites que circundam o nosso planeta, levando e trazendo mensagens. As pessoas acabaram preferindo as relações à distância através dos aparelhinhos. Timidez? Insegurança? Ou modismo mesmo?

Para compensar o tempo gasto na digitação dos caracteres nos WhatsApps, foi-se criando uma linguagem diferente, cada vez mais sintética e o nosso idioma foi-se mutilando, mutilando, até se transformar em um arremedo daquele que herdamos. É claro que a língua é dinâmica e se transforma o tempo todo, mas transformação é bem diferente de mutilação. Enfim, esse é o tempo em que vivemos.

Passava um pouco das 20 horas quando as três mocinhas entraram no restaurante. O objetivo do encontro era bater um papo, colocar as conversas em dia… espairecer o espírito em um papo de adolescentes. Escolheram uma mesa em um canto, de onde pudessem ver quem entrava e saía do restaurante. Ah… mas nem bem tomaram assento à mesa, sacaram de suas bolsas os smartphones. Cada um mais belo e sofisticado do que o outro. Os polegares ágeis passaram a dedilhar aquelas minúsculas teclas na sinfonia monocórdia dos WhatsApps. O teor daquelas mensagens curtas se estampava no rosto das meninas. Entre elas mesmas, nem uma palavra era trocada. O papo era só naquela imensa rede social, um papo virtual, repleto de signos linguísticos próprios, que deixariam Antenor Nascentes corado.

Os signos, ali, naquele universo encantado dos celulares, são abreviados, compactados, para expressarem o máximo possível dentro daquela minúscula tela.

A relação é virtual e o próprio nome “WhatsApp” já foi compactado para “ Zap-Zap”. As garotas, já acomodadas em suas cadeiras, “zapeavam” freneticamente enviando e recebendo mensagens. Mas entre elas, naquela mesa do restaurante, não trocavam nem um olhar. Era uma solidão a três. Com o garçom, trocavam uma ou outra palavra, quando pediam alguma coisa do cardápio.

As pessoas não se relacionam mais face a face, a não ser quando é absolutamente necessário. O relacionamento passou a ser virtual. Não se olharia mais o outro, olhos nos olhos e nem se tocariam e, se fosse do interesse, nem se ouviria a voz, apenas os signos escritos na telinha. Mas aí, criaram o IMO e o relacionamento da telinha acoplou-se à imagem em tempo real. Menos mal.

Mas já passava das 22 horas quando as meninas saíram do restaurante. Já na calçada, deram um “pause” nos aparelhinhos, suspiraram fundo e disseram: “Precisamos marcar outros encontros como esse. É tão bom a gente se encontrar…!”

Em seguida, cada uma seguiu o seu caminho, com os polegares ágeis dedilhando o minúsculo teclado.

Pernilongo: um problema histórico

Os mosquitos têm sido um flagelo para a nossa cidade, desde os tempos da sua fundação. Os cronistas que registraram os primórdios da nossa história ressaltavam sempre o ambiente hostil onde surgia a cidade, em função dos pântanos e dos mosquitos. O próprio nome da cidade, segundo especialistas, significaria algo próximo a “mosquito mau”, “mosquito que morde”, etc., sempre em referência aos mosquitos que, à época, infestavam a região e transmitiam a febre amarela.

O tempo passou, a nossa Muriaé se transformou em um importante polo na região e no Estado, mas os mosquitos continuam afligindo a nossa população. Agora transmitem outros males. Sob o pomposo nome latino de “Aedes Aegypti”, esse mosquito de pernas longas e listradas, é o transmissor da dengue, da chikungunya, do “zica” e sabe-se lá de que outros males que podem aparecer.

Proliferam-se com uma velocidade incrível e as fêmeas, que colocam em média cerca de cem ovos por vez, usam qualquer depósito de água limpa, por menor que seja, para desovarem. Seja uma minúscula tampinha de refrigerante ou caixas de água e piscinas abandonadas. Qualquer recipiente lhes serve.

O mosquito macho, que não se alimenta de sangue, só tem a função de fecundar. A fêmea é que é hematófaga e transmite, com suas picadas, os incômodos males.

Enquanto a ciência não descobrir uma vacina eficaz que possa interromper a transmissão das doenças, temos que formar uma verdadeira cruzada para combater a proliferação do mosquito. É uma luta de todos e de cada um de nós. O poder público sozinho será impotente para vencer essa batalha. As famílias, as escolas, os clubes de serviço, os órgãos de segurança pública, as igrejas e quaisquer outras entidades têm que formar uma só “força-tarefa” e abraçar essa causa.

Os pesquisadores, em seus laboratórios, queimam neurônios e trocam experiências com entidades científicas para descobrirem a vacina, um trabalho árduo que ainda vai demandar tempo e testes para atingir o objetivo.

O Departamento de Pesquisas da Universidade de Pernambuco já está usando um sistema de bombardear com irradiação de Cobalto 60, as pupas criadas em cativeiro, com o objetivo de esterilizar os espermatozóides dos mosquitos, e esses mosquitos estéreis soltos no ambiente, cruzando com as fêmeas, interromperiam o processo de procriação.

A experiência, segundo os especialistas da Universidade de Pernambuco, deverá ocorrer na ilha de Fernando de Noronha, por ser um local isolado e ideal para esse tipo de experiência científica.

Assim, vamos acalentando a esperança do surgimento de uma vacina, mas enquanto ela não chega, é dever de cada a um de nós combater o aedes aegypti como o grande inimigo da nossa comunidade. Um mutirão da solidariedade, em que cada um de nós fará a sua parte. Examine todos os dias os vasos de plantas da sua casa, seu jardim… qualquer recipiente que possa servir de criadouro do mosquito. Não podemos perder essa batalha.

Folia

Carnaval é sempre um período para descontração e, especialmente, para liberar energia (sem os excessos que possam nos trazer problemas). Folia tem também muito de loucura. Não é à toa que sua origem está ligada a “folie”, loucura em francês.

Então, nesta semana, eu uso o espaço da minha crônica semanal para alguns poemas. Afinal, poesia é também libertação interior. Principalmente porque a arte tem o privilégio da amplitude de comunicação. O significado transcende a palavra e empresta ao leitor possibilidades quase que ilimitadas de entendimento. A obra poética é sempre aberta à interpretação de quem lê.

GALILÁCIAS – Poema em prosa

Galileu não sabia só de Física.
Enófilo de carteirinha,
dizia que o vinho era a luz do sol
em forma de humor líquido.

Era Dioniso quem lhe soprava no ouvido
as suas grandes ideias.
Um dia, o alegre e libidinoso deuzinho de sorriso matreiro
quase o matou:
encucou-lhe que a Terra rodava, numa ciranda louca,
em volta do sol.

Inda bem que a reunião com os severos padres foi de manhã,
quando Dioniso já se mandara…
Galileu disse aos padres que era tudo brincadeirinha.
Quem rodava numa ciranda louca era o sol, em volta do planeta azul,
encantado com a sua beleza…

CONCEITO      

No princípio era a esperança.
Esperança de redenção
pelo homem.
Depois a solidão do Criador.

Também!

Em vez de barro
o homem deveria ter sido feito
de aço,
para suportar as dores e o cansaço
dessa existência maluca…

DESARTE  

Mondrian foi assim:
Simplificou,
simplificou e
simplificou
as cores e os traços,
até eliminar qualquer vestígio de arte.
Palmas para o marceneiro…!
Restou a moldura.

As torrefações de café nos anos 60

O presidente Jânio Quadros tinha mesmo algumas ideias brilhantes. Não me refiro àquela de tentar proibir as mulheres de frequentarem as praias de biquíni, mas outras ideias interessantes como, por exemplo, proibir a circulação de caminhões trucados, pois o peso concentrado em uma menor área comprometia o asfalto das rodovias.

Eleito por cerca de 6 milhões de votos em uma coligação do PTN com a UDN, um recorde para a época, Jânio foi um fenômeno eleitoral nos anos 60 e um revolucionário administrativo nos aproximadamente sete meses em que governou o país.

Naqueles tempos, o café consumido pela população brasileira era da pior qualidade. As torrefações, na ânsia de um lucro maior, torravam “escolhas”, cafés ardidos ou brocados, e a população sofria com um produto da pior qualidade. O IBC – Instituto Brasileiro do Café era impotente para disciplinar o processo. O governo adotou, então, uma política interessante: Os comerciantes de café, para exportarem o produto, eram obrigados a entregar ao governo uma cota de 10%, chamada de expurgo, composta justamente de “escolha”, cafés ardidos ou brocados, pedras e outras impurezas. O objetivo era tirar do mercado justamente aquelas impurezas, para que a população pudesse beber um café melhor. Uma parte do café tipo sete e de boa qualidade seria comprada pelo governo ao preço de 650 cruzeiros a saca de 60 quilos e vendida aos torradores pelo preço subsidiado de 360 cruzeiros. Com isso, o governo pretendia melhorar a qualidade do café consumido pela população. O plano era excelente e a intenção, a melhor possível. Os torradores retiravam o produto em armazéns autorizados. Os torradores de Muriaé retiravam as suas cotas em um armazém autorizado, em Manhumirim.

Estranhamente, o número de torrefações começou a aumentar assustadoramente em todo o país. Não demorou muito para se descobrir que a maior parte dos torradores não torrava o café que recebia subsidiado. Ao contrário, emitiam apenas notas fiscais de saída, como se tivessem torrado e vendiam o café aos comerciantes. O mesmo café transitava várias vezes entre o governo e as torrefações. Em Muriaé houve até um caso hilariante e digno de nota. Um torrador, desses que vendiam o café cru, recebeu um dia a visita de um fiscal do IBC. O fiscal, já desconfiado do tal torrador, datou e assinou um papel e o colocou dentro da fornalha apagada da torrefação, sem que o torrador visse. Vinte dias depois, o fiscal voltou ao local. Pelas notas tiradas, o cara já havia torrado cerca de 200 sacas do produto. O fiscal foi até a fornalha e retirou de lá o seu papel datado e assinado, intacto. É claro que a torrefação foi fechada.

O governo teve, então, a genial ideia de, ao receber o café do comerciante, pintá-lo com óxido de ferro, o vermelhão. A partir daí seria impossível o café voltar ao governo novamente. Tinha que ser torrado mesmo. A reclamação foi geral, falou-se até que o óxido de ferro era cancerígeno, que fazia mal para o estômago e tantas outras bobagens. O certo é que a grande maioria dos torradores abandonou a profissão e o número de torrefações voltou ao normal.

Coisa do tempo do Jânio, uma personalidade controversa que, à época de sua campanha, visitou a nossa cidade, hospedou-se na Rua Desembargador Canedo, onde eu morava… ali na casa do Dr. Jorge. Dali, saímos em passeata para o monumental comício da Praça João Pinheiro. Ah, se não fossem as forças ocultas, não teríamos a renúncia, nem a entrada do agitador João Goulart no processo, nem o regime militar e nem… principalmente nem… a PeTralha do Petrorrombo e esse mar de lama…

Os abutres e a carniça

Há momentos em que os homens se assemelham muito aos animais. Afinal, nós pertencemos ao reino animal e a racionalidade que nos distingue pode ser um tênue fio que, a qualquer momento, pode se romper, e aí… foi-se embora a diferença. A assimilação e a conservação dos valores, desde o berço, são os mecanismos para a constituição do nosso patrimônio moral. Um patrimônio capaz de transformar-nos em cidadãos de boa convivência social, afastando-nos da animalidade primordial. A partir daí passamos a entender a prevalência da essência sobre a existência, do ser sobre o ter. Não com a exclusão pura e simples de um ou de outro, mas em um universo de equilíbrio entre essência e existência. Não é assim o significado do termo universo? O uno no verso? A unidade na variedade?

Aí eu me lembrei do condor, a ave que reina nos céus da nossa América Latina.

O condor, que atende pelo nome científico de “Vultur gryphus”, é uma ave típica dos Andes, sendo símbolo nacional de vários países da América do Sul. É a maior ave voadora do mundo, tendo cerca de 3,20m de asa a asa e podendo cobrir cerca de 300 km de voo em um só dia. Em perigo de extinção, essa majestosa ave, que faz o seu ninho nas escarpas rochosas mais altas da cordilheira, põe um ovo só a cada ano. Raramente põe dois ovos, mas quando o faz, os dois filhotes lutarão até que um derrube o outro do ninho. A mãe observa a luta sem interferir. Um mistério da natureza para o aperfeiçoamento da espécie. Sobrevive o mais forte… o mais apto.

O condor domina aquelas alturas com o seu voo imponente, planando ao sabor do vento frio dos Andes, numa vigília incansável, observando com a sua visão aguda e profunda, a profundeza dos vales que se estendem aos pés da magnífica cordilheira. Aos olhos dos homens, o condor representa a imponência, a altivez.

Mas essa ave de porte magnífico, que domina os céus latino-americanos, planando no mais alto da montanha, de repente, movida por um impulso atávico, vislumbra do alto do seu voo os restos putrefatos de uma carniça no mais profundo do vale. É o bastante. Atendendo àquele chamamento interior, despe-se de sua majestade, amesquinha-se e atira-se em um mergulho alucinante em direção à carniça, dilacerando com as suas afiadas garras e o seu bico adunco, as entranhas do animal morto.

Há homens que se assemelham muito a essas aves de rapina e, movidos também por um impulso interior, esquecem a sua pertinência com o Criador e violentam os princípios da moral e da dignidade. Nesses momentos, o ser é sobrepujado pelo ter, a essência, pela existência.

Ortega, o eminente pensador espanhol, falava com propriedade que o homem é fruto das circunstâncias. “Eu sou eu e minhas circunstâncias…”, dizia. Entre essas circunstâncias estarão, é claro, a formação familiar, a escola e o próprio ambiente social em que se vive. Por isso, nossas escolhas não são livres. Escolhemos em função daquilo que somos e, dependendo das nossas escolhas, contribuímos para a construção de um mundo melhor ou pior para nós mesmos e para aqueles que virão depois de nós.

Ano novo

Hoje, não sei por que, me deu vontade de escrever sobre alguma coisa que não tem existência real, mas que, mesmo não existindo, ocupa uma dimensão enorme em nossa existência. Eu falo do tempo, esse controlador invisível das nossas ações que, dimensionado pelo homem em anos, meses, dias ou minutos, nos espreita a cada manhã, testemunhando cada marca de expressão em nosso rosto, cada limitação que se soma ao nosso corpo.

Andam dizendo por aí, há milhares de anos, que o ano é novo a cada ano. Uma artimanha criada pelo homem para organizar-lhe a vida ou atazanar-lhe o espírito com horários e responsabilidades e, quem sabe, renovar-lhe as esperanças, oferecendo sempre a chance de um recomeço, como se tivesse havido alguma interrupção real no processo. De fato, nós é que passamos, nós e tudo aquilo que nos cerca.

Aliás, como disse o filósofo de Könisberg, o tempo não existe… e nem o espaço. São artimanhas mesmo para que o nosso espírito possa entender a complexidade deste mundo vário. Ah… se não tivessem inventado esse artifício, o mundo seria (como se não fosse) um imenso hospício, com tudo amontoado. Fatos e coisas se interpenetrando… uma balbúrdia para o nosso entendimento.

O espaço e o tempo são prateleiras organizadoras onde colocamos as partes dispersas da nossa existência. São aquelas “caixinhas porta-tudo”. Ali, tudo cabe e se organiza. Assim, inventamos o calendário, para dar ares de existência a esse tempo. E há calendários adornados de paisagens várias, com os dias para se riscar ou arrancar, como se fossem momentos para se tirar da lembrança. Outros, adornados de mulheres e expostos em oficinas mecânicas, como verdadeiros lenitivos para alimentar a libido e assanhar os sonhos, dando sentido à dura vida diária. Ah… se não houvessem essas prateleiras organizadoras.

Os homens inventaram e nomearam cada mês com um nome próprio e significativo. O janeiro, tiraram de Janus, o deus que protegia as portas de Roma; o fevereiro veio das festas de purificação, chamadas Fébruas, para afastar os maus espíritos; o março, tirou-se de Marte, o deus da guerra; para abril, reservou-se uma homenagem a Aprilis, que pode se referir à espuma do mar onde teria nascido Vênus, a deusa do amor; maio, se ligaria a Maya, uma deusa romana; Junho, uma referência à Juno, a deusa romana que protegia as mulheres casadas e a maternidade; julho, uma homenagem ao grande governante romano Júlio César, e agosto, em referência a Augusto César, o maior dos governantes de Roma.

Aí o calendarista deve ter se cansado de procurar relações para meses e nomeou os demais apenas em referência à sua posição ordinal no ano: setembro, outubro, novembro e dezembro. É claro que no início, o ano tinha dez meses.

Abstração ou não, o tempo já faz parte da nossa vida e é impossível nos libertarmos do calendário e do relógio. A cada período nos despedimos de um abstrato e hipotético ano velho que se encerra e nos abraçamos a um abstrato e hipotético ano novo que se inicia. E o fazemos com o espírito cheio de esperanças em um mundo melhor. Talvez seja essa esperança o combustível para suportarmos os erros e os equívocos produzidos por nós mesmos e que iremos, com certeza, repetir no próximo “novo ano”. Afinal, a esperança acaba sendo um adiamento perpétuo das ações que gostaríamos de realizar, mas que permanecem povoando apenas os nossos sonhos…