Oftalmologistas do Calçadão

Há muitos anos, antes das fiscalizações dos Conselhos que autorizavam o exercício das profissões, existiam os chamados “práticos”, pessoas que aprendiam ao lado de outro profissional durante algum tempo e depois tornavam-se profissionais na área. Assim, tínhamos os “Farmacêuticos Práticos”, muitos deles, ou a maioria, com grande conhecimento e experiência na área. Além de conhecedores das drogas manipuladas e exímios “decodificadores” das letras dos médicos para entenderem os complicados nomes dos componentes químicos dos remédios que iam manipular, possuíam um profundo conhecimento dos remédios da flora, fabricados com folhas e raízes de diversas plantas. Os Farmacêuticos Práticos, principalmente nos pequenos lugarejos de parcos recursos médicos, assumiam muitas vezes as funções de parteiros para aquelas mulheres simples que, àquela época, pariam os seus filhos em sua própria casa. Os Farmacêuticos, tanto os práticos como os formados em bancos de Universidades, receitavam até óculos. Lembro-me da “Pharmácia Paschoal”, do Sr. Bernardino (formado em Faculdade), com o seu balcão repleto de óculos com lentes de diversos graus. O cliente ia experimentando um a um, até encontrar aquele que lhe proporcionasse uma visão mais nítida das letras que eram postas à sua frente. Esses Farmacêuticos costumavam ser, como os padres locais, os pontos de apoio das comunidades em que viviam. Por isso muitos deles foram expressivos líderes políticos locais.

Paralelamente existiam também os “Dentistas Práticos” que, após aprenderem o ofício por algum tempo, exerciam a sua profissão, tanto em consultórios fixos, como atuando como profissionais ambulantes, percorrendo fazendas e lugarejos com o seu limitado equipamento (normalmente espátulas, pinças e boticões, pois não se usava anestesia), atendendo os seus clientes. O nosso Tiradentes, por exemplo, foi um desses práticos, embora tenha ficado na história como o protomártir da nossa Independência.

Existiam também as “Professoras Leigas”, sem diplomação para o cargo mas com o conhecimento necessário para transmitir conhecimentos naquelas escolas rurais tão carentes de professores. Algumas, meigas e pacientes com os alunos, outras, com a pedagogia da régua grossa no lombo ou a temível palmatória, que não tive o desprazer de conhecer ou experimentar. Das “reguadas” tenho boas lembranças…

Mas eu queria falar mesmo era dos “Oftalmologistas do Calçadão”. Os que citei atrás foram frutos do tempo, de uma época em que, existindo poucos centros de formação, esses profissionais cumpriam um relevante papel nas comunidades carentes daquelas profissões. Muitos deixaram o seu nome na memória das cidades ou comunidades em que viveram graças aos bons serviços que prestaram. Mas o que causa espanto é a gente ver nos dias atuais, nos calçadões de cidades maiores, aqueles “oftalmologistas” com uma banca repleta de óculos com lentes dos mais variados graus e as pessoas “experimentando” à procura daquele que lhe proporcione uma melhor visão. A desculpa é que as pessoas têm interesse apenas nas armações, que ficariam hipoteticamente mais em conta do que uma armação de marca em uma Ótica. Mas o fato é que muitas pessoas acabam usando mesmo aqueles óculos, desconhecendo se o grau da lente que necessita é aquele mesmo ou, principalmente, se é o mesmo para cada um dos seus olhos. É uma pena que ainda seja permitida a venda de óculos de grau em bancas de rua sem uma fiscalização do órgão competente.

O tiro saiu pela culatra

Um tiro sair pela culatra, ou seja, pela parte traseira de uma espingarda, só seria possível nos msoquetes do séc.XVIII, cuja munição e pólvora eram carregados pelo mesmo orifício, que era o cano da arma. Mas mesmo assim, a expressão “O tiro saiu pela culatra” consagrou-se como sendo a tomada errada de uma decisão que provoca uma consequência contrária àquela que se pretendia.

Assim foi a pífia passeata organizada por alguns professores de Universidades Públicas e alunos “ideologizados” nos bancos escolares, contra o que eles entendiam como corte de verbas nas Universidades. O despreparo de alunos e professores, preocupados mais com o repasse de ideologia do que com a qualidade da educação, impede que eles entendam a diferença entre “corte de verba” e “contingenciamento”; impede que eles entendam que,  pelo contrário, as Universidades Públicas brasileiras têm verba em excesso, o que não têm é competência e honestidade para administrar os vultosos recursos que lhes são destinados, fruto do sacrifício da população que paga os seus impostos; impede que eles entendam que o Ensino Fundamental, principalmente, está um caos; impede que eles entendam que as nossas  Universidades Públicas gastam imensamente mais do que grandes Universidades norte-americanas ou europeias que, administradas por competentes e íntegros Conselhos, já propiciaram centenas de prêmios Nobel nos mais variados campos da ciência e da tecnologia, enquanto as nossas Universidades Públicas ainda estão distantes anos luz de cumprirem o verdadeiro papel de uma “Universitas”. As nossas Universidades se tornaram peritas em ideologizar alunos nas ultrapassadas linhas de esquerda, como se  nos dias atuais ainda tivesse algum significado ensinar os pensamentos naftalínicos de Marx, de Engels ou de Gramsci. Mas em que sentido a pífia passeata foi “um tiro pela culatra”?

É que a resposta veio imediata. Não por grupos organizados e ideologizados à custa do dinheiro público, mas de uma forma espontânea e com a participação de diversos setores da população. Os motivos? Os motivos foram vários. Primeiro um apoio maciço ao projeto do Governo Federal de empreender as reformas que o nosso país precisa, principalmente a da Previdência; segundo, uma reação à esquerda retrógrada que por quase duas décadas dilapidou o nosso país, solapando as nossas finanças com o maior sistema de corrupção já ocorrido no planeta; uma esquerda que tem seus principais líderes atrás das grades, condenados por corrupção e formação de quadrilha. Essas foram algumas das motivações das passeatas promovidas pela população brasileira em todas as capitais  e em grande parte das cidades brasileiras. A nossa Muriaé não ficou de fora dessa manifestação nacional. O tiro da esquerda saiu mesmo pela culatra e chamuscou de pólvora a cara dos esquerdopatas.

Apenas um problema induz a uma crítica mais aguçada. Durante as passeatas da população, muitos cartazes eram veiculados pedindo o “fechamento do Congresso e do Supremo Tribunal Federal”. Sem dúvida, vivemos em uma Democracia Liberal e é livre a expressão de pensamento, mas justamente por sermos uma Democracia Liberal temos a obrigação de defender as nossas Instituições e não de fechá-las. O Poder Legislativo, tanto federal, Estadual ou Municipal e as Cortes de Justiça são instrumentos fundamentais para a existência de uma democracia e a limitação de quaisquer tentativas de poder discricionário. Mas o que faz as pessoas pregarem o seu fechamento? Talvez seja a insistência de alguns membros dessas instituições, ou talvez muitos, de não ouvirem a voz da população que deseja e exige a moralização do país. Mas isso não é motivo para abandonarmos as nossas convicções democráticas. A solução deverá vir sempre do aperfeiçoamento das nossas instituições pelo processo democrático do voto popular, um voto consciente capaz de impedir os maus políticos de galgarem o poder. Só assim poderemos moralizar o nosso país. Aí as nossas escolas, sem partido e sem ideologização, poderão formar as futuras gerações em conhecimento humanístico e científico, como qualquer cidadão de bem deseja.

Um coração dividido em duas pátrias

Saímos de Paris com destino a Rouen às 9,17 da manhã. É interessante como os horários de partida e chegada dos trens por aquelas bandas é sempre em frações de horas e as saídas e chegadas ocorrem rigorosamente no horário. Assim, chegamos ao nosso destino às 10,47, cerca de uma hora e meia depois. Embarcamos na histórica Estação de “St. Lazare” na capital francesa e desembarcamos na Estação principal de Rouen, a capital da Normandia.

A Normandia fica a noroeste de Paris, bordejando o Mar do Norte. Foi uma região invadida há centenas de anos por Vikings, Noruegueses e Suecos, que eram chamados os homens do norte ou “norsemen”, na língua nórdica, que acabou por dar origem ao gentílico normando e o próprio nome da região.

A Normandia é hoje famosa pela produção de seus queijos, considerados os melhores do mundo, principalmente o famoso Camembert, feito com leite cru (não pasteurizado), das famosas vacas normandas.

Mas o que nos levou a visitar Rouen foi o fato de ter sido ali o local em que a jovem e valente Joana D’Arc foi queimada viva em uma fogueira, após ter sido encarcerada em uma torre que hoje leva o seu nome. Foi queimada na velha Praça do Mercado, onde se ergue hoje uma estátua em sua homenagem. Havíamos visitado, em uma viagem anterior, a histórica cidade de Blois, no Vale do Loire, onde a jovem Joana D’Arc organizou as suas tropas para atacar Orlèans.  Capturada em 1430 em Compiègne, a jovem foi levada para Rouen e entregue aos ingleses que à época dominavam a região da Normandia e esses, por sua vez, entregaram Joana ao Clero local que a condenou ao martírio da fogueira, aos 19 anos. Rouen, portanto, fecha o círculo entre o início e o fim da heroica aventura da jovem francesinha que séculos depois foi absolvida pela Igreja e elevada à condição de Santa Joana D’Arc, hoje venerada pelos franceses.

Mas Rouen tem muito mais história para nos contar. É banhada pelo rio Sena que serpenteando da região central da França até o norte do país, acaba desaguando no mar do norte onde dissolve sua identidade nas frias águas daquele mar. As centenárias casas de enxaimel de Rouen, com traves de madeira cruzadas e os vãos preenchidos por tijolos, espalhadas por seu centro histórico são uma prova do apreço do povo local por sua tradição. O famoso “Gros Horloge”, um relógio astronômico inaugurado no século XIV, é outra atração histórica da cidade.

Mas sem dúvida, a grande atração da capital normanda fica mesmo por conta da sua imponente Catedral de “Notre Dâme de Rouen”, um verdadeiro monumento à cristandade, que sofreu violentos bombardeios quando da invasão dos aliados na Normandia, restando nos blocos de granito da sua fachada as marcas das metralhadoras ponto 50 da Segunda Grande Guerra. A parte românica da majestosa Catedral foi construída no ano de 1030 e sua parte gótica em 1.145, mas a obra foi efetivamente concluída em 1506, apesar do seu magnífico pináculo de ferro fundido ter sido colocado em 1876 elevando a altura da Catedral a 151 metros. O impressionante de uma catedral gótica são as suas torres pontiagudas que, como finíssimas agulhas quase que se dissolvem no céu, oferecendo um espetáculo de transcendência àqueles que a contemplam.

Fiquei intrigado com o fato de estar ali, na nave daquela Catedral o túmulo com os restos mortais do rei Ricardo I da Inglaterra, o famoso “Ricardo Coração de Leão”, assim conhecido por sua coragem nos campos de batalha. Tive que pesquisar pois não entendia o fato de um rei inglês ser sepultado em solo estranho à sua pátria. Acabei descobrindo que o famoso rei inglês era um admirador profundo daquela região, que à época pertencia à Inglaterra e passava muito mais tempo na Normandia do que no seu próprio país. Diz a lenda que o rei gostava mais de se comunicar em francês do que em inglês. Mas por que o túmulo de Ricardo I na Catedral de Rouen ?  Ricardo Coração de Leão, que viveu de 1.157 a 1199, foi sepultado na Abadia de Fontevraud, a 260 km de Rouen mas, a seu pedido, apenas o seu coração foi sepultado na Catedral de Rouen, como preito à terra que tanto amava.

Os mistérios de um ditador

Os mistérios que cobrem a vida de uma celebridade são desvendados muitos e muitos anos depois de sua morte, principalmente os mistérios que envolvem a vida de um ditador. Foi assim com Stalin, cujas minúcias sobre seu regime de terror só foram desvendadas depois que o governante russo Mikhail Gorbachev, com a Glasnost e a Perestroika, abriu os arquivos da extinta URSS ao mundo civilizado. Só assim ficamos sabendo que os mais de 150 mil oficiais do Exército polonês fuzilados e sepultados em covas coletivas, foi obra de Stalin e não do Exército alemão. Do mesmo modo, ficamos sabendo das atrocidades da ditadura hitlerista.

No que se refere à ditadura de Fidel Castro (de 1959 a 2008) o desvelamento dos mistérios está sendo mais breve do que se esperava, pois muitos jornalistas já pesquisavam sobre os segredos do ditador cubano e as controvérsias sobre sua vida particular.

O primeiro grande problema é o verdadeiro nome do ex-ditador cubano. Segundo fontes do governo cubano seu nome era Fidel Alejandro, mas ele possui diversas certidões de nascimento em virtude de sua condição de filho ilegítimo, por isso, teve diversos outros nomes. A historiadora Cláudia Furiati, em um livro publicado em 2003, afirma que na certidão de batismo de Fidel, de 1935, ele foi registrado como Fidel Hipólito Ruz Gonzales. Já em 1938 consta outro nome: Fidel Cassiano Ruz Gonzales e em 1941, quando foi finalmente reconhecido pelo pai, passa a se chamar Fidel Alejandro Castro Ruz, nome pelo qual ficou conhecido até a sua morte.

Mulherengo ao extremo, teve muitos filhos, cerca de onze, entre legítimos e ilegítimos, segundo a jornalista americana  Ann Louise Bardach. A jornalista ainda inclui outros “herdeiros” não confirmados, como um homem chamado Ciro Redondo que teria sido fruto de uma breve relação do líder cubano. A mesma jornalista afirma ainda que em 2007 uma desertora do Serviço de Inteligência cubano disse ter tido um filho com Fidel nos anos 70.

Quanto à fortuna do ditador, a revista Forbes passou a incluí-lo entre os mais ricos a partir de 1997 e em 2006 o líder cubano aparece na citada revista com uma fortuna avaliada em USD 900 milhões (R$ 3,1 bilhões). Com o tempo, muitos outros segredos ainda virão à tona.

Por ocasião da morte do Ditador cubano, em 2016, fiz um poema, não em sua homenagem, mas para os milhares de cubanos mortos no “paredón” ou exilados do país.

 

A MORTE DO TIRANO

(25/11/2016)

Adellunar Marge

 

O tirano destruiu os ideais de muitos,

dobrou-lhes o corpo com a tortura, subtraiu vidas

no “paredón” ensanguentado.

Gestou, na crueldade das suas ações, multidões de órfãos e viúvas

ou matou, na semente da juventude, os filhos e esposas que seriam…

 

O tirano, ensandecido pelo poder, implantou o medo e o terror

no coração dos homens.

A melodia que embalava os sonhos na ternura dos boleros,

emudeceu na ilha.

 

O tirano espojou-se no sangue de gerações mas não derrotou

a morte.

Um dia ela chegou e o encontrou envelhecido de corpo e

de alma

e o tirano sucumbiu.

 

Já estava morto, quando morreu.

Os que sobreviveram à sua tirania bailaram à luz do luar

ainda longe da ilha,

com a esperança de voltar…

Afinal, quem cortou a orelha de Van Gogh?

Van Gogh foi e ainda continua sendo, através das obras que deixou, uma das maiores expressões da pintura mundial. Foi classificado como um representante pós-impressionista na pintura.

Vincent Willen Van Gogh nasceu em Zundert, Holanda, em 30 de março de 1853 e cometeu suicídio (versão às vezes contestada) em Auvers-Sur-Oise, França, em 29 de julho de 1890. Sua obra foi bastante influenciada pelas pinturas de Claude Monet, Rembrandt e Cézanne, para citar os mais importantes.

Durante seus trinta e sete anos de vida, Van Gogh foi uma alma atormentada. Sofria de Transtorno Bipolar ou maníaco depressivo, ansiedade, depressão e tinha ataques frequentes de epilepsia. Além de todos esses problemas, Van Gogh era usuário dependente do absinto, uma bebida de elevado teor alcoólico, tóxica e de uso muito comum entre artistas, escritores e poetas naquela época. Sua base de apoio psicológico sempre foi o irmão Teo, que atenuava suas crises.

O conjunto de todos esses problemas que transformaram a vida de Van Gogh em um drama existencial, não foi empecilho para que ele se transformasse em uma das maiores expressões nas artes plásticas. Sabia traduzir, como ninguém, as “impressões” interiores que tinha do mundo que o cercava, através das cores de suas tintas e da magia de seu pincel.

Apesar de nunca ter vendido nenhuma de suas mais de duas mil obras, enquanto vivo, seus quadros atravessaram o tempo, imortalizaram o pintor e atingem hoje, nos grandes leilões de empresas famosas como a Sotheby’s, por exemplo, milhões de dólares quando são leiloadas. Em 2015, por exemplo, seu quadro “L’Allée des Alyscamps” foi vendido por 66 milhões de dólares e o “Portrait de Dr. Gachet”, pintado em 1890, ano da sua morte, por 82,5 milhões de dólares.

Mas eu nomeei esta crônica como “Afinal, quem cortou a Orelha de Van Gogh”.

Ninguém desconhece a história de Van Gogh, em uma de suas crises depressivas, ter cortado parte da sua orelha com uma navalha e ter levado o pedaço que cortou para dar de presente à Rachel, uma prostituta sua amiga. Depois, Van Gogh, que gostava de pintar auto-retratos, pintou-se com um curativo cobrindo a sua orelha cortada. Mas segundo os escritores e pesquisadores alemães Hans Kalfmann e Rita Wildegans, no polêmico e recente livro “A Orelha de Van Gogh: Paul Gauguin e o Pacto de Silêncio”, o que pouco gente sabe é que tem muito mistério ainda por trás dessa história.

Quando Van Gogh mudou-se da Holanda para a França, encantou-se com as manhãs claras daquele país, principalmente em seus dias de Verão. As cores das flores e da vegetação, acentuadas pela luz brilhante do dia, entorpeciam o pintor e ele traduzia aquele sentimento para os quadros que pintava.  Segundo os autores do livro, certa vez, quando Van Gogh estava em Arles, na Provence, vivendo na famosa “Casa Amarela” da Praça Lamartine, convidou o seu amigo, também consagrado pintor, Paul Gauguin, que viveu ali, trabalhando com Gogh de outubro a dezembro de 1888. Durante esse período, precisamente no dia 23 de dezembro,  os dois pintores tiveram uma séria discussão por causa de uma disputa sobre a prostituta Rachel. Foi quando Van Gogh empunhou uma navalha agressivamente e Gauguin, que era um exímio esgrimista, desembainhou a sua espada para se defender e, talvez acidentalmente, acabou decepando um pedaço da orelha de Van Gogh. Para que Gauguin não fosse para a cadeia e Van Gogh não fosse para o hospital, fizeram o tal “Pacto de Silêncio”.  Segundo Hans Kalfmann, Van Gogh deixa uma pista na carta que enviou ao irmão Teo, quando afirma: “Felizmente Gauguin não estava armado com metralhadoras ou outras armas de guerra perigosas…”. Resta aguardar novas especulações para decifrarmos mais esse enigma na conturbada vida do pintor holandês.

A responsabilidade do articulista

Escrever em um jornal, ainda que seja através de uma crônica semanal, reveste-se de uma responsabilidade muito grande, tanto em relação ao Jornal como (e principalmente) em relação aos leitores que nos honram com a sua leitura.

Nem sempre os assuntos que abordamos agradam a todos que os leem. A visão de mundo difere em cada pessoa, por isso a diferença do juízo que cada um faz sobre aquilo que escrevemos.

No entanto, para quem gosta, escrever é um exercício de prazer, jamais um sacrifício. Quando  escrevemos, tiramos as palavras do isolamento em que se encontram e as ligamos umas às outras buscando transmitir uma ideia, que pode ser real ou até mesmo se situar no reino da fantasia, como na poesia.

Nesse exercício lúdico, os autores se diferem de acordo com a sua competência, a sua capacidade de expressar o pensamento e levar ao leitor um trabalho de qualidade. O mundo possui milhões e milhões de pessoas que escrevem, mas apenas uns poucos se destacam como grandes expressões na arte da escrita.

Na Literatura encontramos inumeráveis exemplos de penas magníficas, capazes de conjugar a arte com a escrita, brindando o mundo com verdadeiras obras-primas. Estou me referindo a autores do porte de um James Joyce e o seu magnífico Ulisses, de um Machado de Assis e seus romances memoráveis, de um Victor Hugo e o seu Corcunda de Notre Dâme, de um Alexandre Dumas, de um Manoel Bandeira, Uma Cecília Meireles, um Dostoievsky, um Edgar Allan Poe ou excelentes cronistas como Rubem Braga, Fernando Sabino, Clarisse Lispector e tantos outros.

Todos nós podemos escrever se somos alfabetizados, mas escrever com a qualidade de um grande escritor é uma dádiva reservada apenas a alguns por sua genialidade, como os autores que citei acima. Mas isso não impede que pessoas como eu, ainda que não dotado das qualidades de um homem de letras, aventure-se no universo das crônicas ou da poesia, ocupando a coluna semanal de um jornal. Escrevo, talvez pela bondade do Jornal que me aceita ou da gentileza dos leitores que leem  os meus escritos. De qualquer modo é um prazer transitar pelas páginas do “A Notícia”, disfarçando-me de cronista enquanto o tempo passa e me transpassa com o passar dos anos. Mas mesmo assim tenho as minhas retribuições.

Uma dessas retribuições é a prezadíssima Dona Penha, que do alto dos seus noventa anos de vida e experiência, exercita a sua caminhada pelas manhãs, na Av. Kubitschek, ostentando o seu bom humor e o seu encanto pela vida. Caminha esguia, ao lado da sua filha, com o brilho nos olhos de quem contempla o futuro. O tempo não lhe abate o espírito e jamais lhe diminui a vontade de viver e celebrar a vida nas manhãs de sol da Kubitschek.

Penha significa rocha ou rochedo. Deriva do espanhol “Peña” e não poderia refletir melhor a firmeza de corpo e espírito da simpática e gentil Dona Penha.

Um dia desses eu a encontrei caminhando na avenida. Ela parou-me para cumprimentar-me e se disse, como de outras vezes, leitora assídua das minhas crônicas, com elogios que eu estou  muito longe de merecer. É uma honra ser lido por uma leitora como a senhora Penha. Nós valemos muito mais pela qualidade daqueles que nos elogiam. Obrigado Dona Penha…!

O lixo nas ruas e as enchentes

É certo que pesquisadores apregoam em altas vozes que as ações dos homens sobre o meio ambiente têm provocado alterações climáticas em todo o planeta, ocasionando tempestades como há muito tempo não se via. É claro que, (com muitos exageros), o homem tem sido visto como o grande vilão das desgraças do mundo, mesmo se levarmos em conta que na época das catástrofes que dizimaram os dinossauros e grandes florestas, o homem ainda nem existia sobre a face da terra. Mas não podemos negar que o homem tem tido, através dos tempos, uma considerável parcela de culpa nos problemas que afligem o mundo e ao próprio homem, o maior algoz de si mesmo.

As últimas terríveis enchentes que ocorreram nas cidades de São Paulo e do Rio de Janeiro podem ser debitadas à incompetência de governos anteriores em solucionar os graves problemas de infraestrutura das cidades, principalmente no que se refere às redes pluviais urbanas. Mas é impossível não se debitar a maior parcela de culpa a uma grande parcela deseducada da população, que inunda as ruas de lixo, entupindo as redes urbanas de escoamento. Basta que se olhe os bueiros entupidos das cidades e toda a sorte de entulho espalhado pelas ruas pelas próprias pessoas que nelas transitam.

Em nossa Muriaé a situação não é diferente. É claro que os administradores municipais têm sim uma relevante parcela de culpa em não dotarem a nossa cidade de números necessários de lixeiras, de não manterem limpas de mato e de lixo as margens do nosso maltratado rio e, até mesmo, de não efetuarem limpezas mais frequentes dos bueiros da cidade. Mas seria injusto crucificar apenas a administração pública municipal pelos problemas da limpeza urbana. A maior parcela de culpa é mesmo da população.

As margens do nosso rio, ainda que não estejam capinadas e com o mato retirado com mais frequência, é um imenso depósito de lixo a céu aberto. As pessoas descartam diariamente naquelas margens, milhares de sacolas de mercado cheias de lixo caseiro, restos de materiais de construção, restos de móveis usados e plásticos de toda a ordem. É só olhar as margens do nosso rio Muriaé na extensão da Avenida Kubitschek. Uma operação de limpeza desses entulhos diários pelo Poder Público seria uma infrutífera tarefa de “enxugar gelo”.  Isso sem falar no lixo que se joga pelas ruas em forma de papéis, plásticos e cascas de frutas de toda a ordem.

A famosa tese de “conscientização” da população a respeito desses problemas parece não surtir muito efeito. As escolas ensinam essas noções fundamentais de cidadania mas parece que as pessoas já trazem de casa certos hábitos difíceis de serem corrigidos.

Há alguns anos, quando ainda lecionava em um curso superior, um aluno, durante uma aula de Ética, degustava balas na sala de aula. À sua volta, ele atirava dezenas de papeis das balas que consumia. Quando o interpelei educadamente sobre aquele acúmulo de lixo a sua volta ele respondeu, a mim e diante da turma, que ele pagava à Instituição pelo curso que fazia e que, portanto, era “obrigação” dos serventes da área procederem a limpeza do local.

Assim ocorre nas ruas das cidades e “conscientização”, ainda que aconselhável, não seria suficiente para a solução do problema. Talvez, uma medida mais eficaz fosse a instalação de câmeras por toda a cidade para flagrar os “sugismundos” urbanos e aplicar uma multa por ato de infração contra a limpeza urbana. Às vezes não adianta apenas apelar para a consciência das pessoas, pois muitos ainda não a possuem desenvolvida em nível de uma efetiva cidadania, mas uma sanção em dinheiro teria um efeito mais rápido e formador. Afinal, o órgão mais sensível do ser humano é o bolso…

AS PEQUENAS MÁQUINAS QUE INVADIRAM A NOSSA VIDA

De repente aqueles sinais eletrônicos musicados anunciando uma nova mensagem e depois, mais outra e mais outra e os dias e as noites são insuficientes para receberem tantas mensagens. A maioria referindo-se a futilidades sem serventia alguma. Mas o fascínio do aparelhinho, seja um Iphone caríssimo da Apple ou um modelo mais modesto de um Android da Google, não interessa, os Smartphones invadiram as nossas vidas e transformaram o nosso modo de ser. Sem um aparelho daqueles nas mãos algumas pessoas se sentem mutiladas.

As mensagens se sucedem numa rapidez tamanha que às vezes é impossível ler todo o texto recebido, principalmente daquelas mensagens enormes, de autoria duvidosa e com o indefectível conselho: repasse para tantos amigos. E a maior parte das pessoas, como cordeirinhos, repassam…

Colocam-se na boca de filósofos, personagens ilustres, políticos e Papas coisas que eles talvez jamais tenham falado, mas são usados para se agregar um pouco de credibilidade àquilo que se afirma e as maquininhas não nos dão sossego com seus sinais musicados insistentes.

Muitos pais, talvez para se livrarem do trabalho de dedicar atenção aos filhos, dão a eles de presente os mais diversos tipos de Smartphones, de acordo com o gosto e o bolso de cada família e as crianças, em casa, nos restaurantes, nas ruas ou nos intervalos das aulas, clicando com os dois pequeninos polegares aquelas minúsculas teclas, com uma agilidade de fazer inveja aos adultos. As mulheres, à noite, trocam as caricias do casal pelo toque no já quase erótico aparelho num frenesi prazeroso que se estende até à madrugada.

O desempenho das crianças na escola cai, mesmo com a educação caótica que temos, incapaz de exigir grandes coisas dos alunos. Parece (a despeito de todas as vantagens da tecnologia) que existe uma estratégia por traz de tudo isso para formar um mundo de cordeiros internéticos, guiados pelo guizo eletrônico dos aparelhinhos. Teoria da conspiração? Que seja…!

Não sabemos ainda a extensão dos danos a essas crianças com 24 horas de celular nas mãos, mandando e recebendo mensagens ou conectadas nos jogos eletrônicos. Uma família, à mesa de um restaurante ou em um parque público, não conversa. Cada um “saca” o seu smartphone como se fosse um Colt nos filmes de faroeste e se conecta. Alguns diriam que isso também é comunicação. Tudo bem, mas não é uma comunicação com a pessoalidade da presença, olhos nos olhos, como se pretende uma relação. A não presença faculta a artificialidade ou até mesmo a falsidade do diálogo.

Eu me cansei. Não sei se pelos anos de estrada existencial ou se por um rigor crítico absurdo, o certo é que eu me cansei disso. Cansei de atender aos apitos eletrônicos e encontrar aquelas mensagens repetitivas de conselhos morais, de apelo religioso. Cansei de atender mensagens enviando textos de fanáticos ideológicos, excretando boçalidades. Passei a entender que a vida tem coisas muito mais importantes do que isso. Aí eu resolvi dar um tempo. Não frequento mais o Facebook; só acesso o meu E.Mail para enviar as minhas crônicas semanais ou ver se tem algo de importância que mereça a minha atenção; desabilitei do meu celular os aplicativos de whatsApp e outros mais. Agora o meu aparelho só tem função telefônica e isso me basta.

Faz um mês e me sinto ótimo. O meu tempo eu o tenho ocupado com a releitura do acervo da minha biblioteca pessoal e a cada releitura descubro um universo novo naquelas obras, porque as releio com um espírito sempre diferente do espírito que tinha na primeira leitura. Tenho livros que vão dar para eu reler até o fim da minha vida. Entrando nos 79 anos não é tanto tempo assim, preciso aproveitá-lo bem…!