A RESPOSTA DAS URNAS

Adellunar Marge

Apesar de todos os seus defeitos, a Democracia Liberal ainda é o melhor dos sistemas para a garantia de um Estado de Direito. Às vezes pode ser fragilizada pela demagogia dos extremismos e, justamente por isso, Eduardo Gomes, baseando-se em Tocqueville, afirmava: “O preço da Democracia é a eterna vigilância”.

Foi justamente o exercício dessa objetiva vigilância que impediu em nosso país o retorno ao poder de um sistema de fundamentação comunista, marcado pela corrupção e pelos escândalos em cerca de uma década e meia no comando do país. Jamais construíram um sistema de governo, optando pela construção de um “sistema de poder”. Truculentos e manipuladores, substituíram as liberdades individuais dos menos favorecidos pela miséria alienante do assistencialismo, garantindo o sucesso provisório do processo com a ação de uma intelectualidade orgânica gestada no imoralismo ideológico das Universidades Públicas que formavam contingentes de “formadores de opinião” capazes de guiar uma extensa e subserviente “massa de manobra” infiltrada na população. Jamais se diriam “Comunistas”, pois o termo assustador poderia alertar e alarmar a massa popular. Melhor se autodenominarem de “Socialistas”, um termo mais palatável para a população, embora nem de longe deixassem de refletir os sistemas cruéis e autoritários que lhes deram origem, como as ditaduras de Cuba, da Venezuela, da Coreia do Norte ou da extinta e sepultada URSS.

O Foro de São Paulo com líderes como Lula, Fidel Castro, José Dirceu, Chaves e membros das FARC (Organização criminosa colombiana, à época em grande evidência no tráfico de armas e drogas), nutria o grande sonho de criar um monstrengo similar à URSS, que seria a URSAL – União das Repúblicas Socialistas da América Latina, uma organização que pudesse eternizar no poder uma ideologia já morta e sepultada na modernidade. Só um problema impediu a concretização desse ideal macabro: Todas as vezes e em todos os lugares em que a esquerda chegou ao poder ela sempre foi: incompetente, autoritária e corrupta. Autodestruiu-se pelos seus próprios pecados.

O filósofo e lingüista marxista norte-americano, Noan Chomsky, disse há algum tempo que “o problema do PT foi, ao chegar ao poder, não conseguir manter as mãos fora do dinheiro público”. Palavras de Chomsky citadas por Marcelo Rubens Paiva em sua coluna no jornal “Estado de São Paulo”.

Se a esquerda brasileira tivesse feito o exercício do “Mea Culpa”, reconhecendo os seus erros, a corrupção dos seus líderes e a responsabilidade dos seus atos; se tivesse admitido a justa condenação e prisão dos seus líderes pela soberana justiça brasileira, mesmo usando de todos os recursos legais cabíveis, talvez tivesse conquistado o perdão da sociedade. Mas o posicionamento de “donos da verdade” e a resistência em reconhecer os erros cometidos, provocou o veredicto da população no exercício soberano do seu voto. O mesmo voto que corrigiu o erro da não cassação dos direitos políticos da Dilma quando do seu “impeachment”.

A Democracia Liberal pode até mesmo não oportunizar que levemos ao poder o melhor dos candidatos, mas nos dará sempre a oportunidade de tirar do poder ou impedir que voltem a ele os que já demonstraram a sua inaptidão moral ou administrativa para exercê-lo.

A maioria da população brasileira, compromissada com o combate efetivo da corrupção, com a retomada do crescimento econômico, com a recuperação da qualidade da Educação, da Saúde e da Segurança Pública e com a recuperação dos valores da família e da nacionalidade, espera do Presidente eleito, Jair Bolsonaro, as ações necessárias para que isso aconteça. Não é uma tarefa fácil, pois o país foi destroçado por muitos anos de péssima administração. Vão ser cobradas do Presidente eleito as ações prometidas e esperadas por todos, mas igualmente, e com a mesma veemência, vai ser cobrada da oposição atitudes e comportamentos responsáveis, sem anarquia, sem badernas ou atos que perturbem a normalidade democrática. As nossas instituições já estão maduras o bastante para garantir um Estado permanente de Direito e a tranqüilidade que a nossa população merece e exige. Somos um povo múltiplo em etnias, matizes culturais e convicções. Que o futuro Presidente tenha a competência e a firmeza necessárias para guiar a nossa pátria para o destino que o nosso povo merece e sinalizou através do seu voto.

OS FUNDAMENTOS DA DEMOCRACIA

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Um dos temas mais recorrentes na atualidade tem sido a Democracia. Por sua própria etimologia significa um modelo de governo em que o poder emana do próprio povo que constitui a nação. A Democracia tem a sua origem na Grécia antiga e deve a sua criação não apenas à disposição do próprio povo, mas às idéias de Clístenes, por volta do ano 508 a.C., que privilegiou os direitos dos cidadãos na organização e no governo da cidade de Atenas, em oposição aos interesses de uma oligarquia desejosa apenas da concentração de poder. Menos de um século depois, entre 440 e 430 a.C., Atenas atingiria o seu clímax como civilização sob o governo de Péricles.

Apesar de todo o crédito que se dá à Grécia pela criação da Democracia, esse sistema de governo nas cidades gregas ainda estaria muito longe dos ideais democráticos que ansiamos nos dias atuais. Se no auge da civilização grega a cidade-Estado de Atenas possuía uma população em torno de 300.000 habitantes, pouco mais de 10% eram os chamados cidadãos, denominados “eupátridas” que tinham o direito de opinar na ágora (praça pública) sobre os destinos da nação. O restante da população era composto, além de crianças, pelas mulheres, pelos metecos (estrangeiros que viviam em Atenas) e pelo grande número de escravos. A esses contingentes humanos, que eram a grande maioria, não se dava o direito de opinar sobre os destinos do país.

A nossa Democracia, com todas as suas limitações, é muito mais abrangente do que aquela Democracia idealizada há tantos séculos pelo povo grego, embora jamais possamos negar o gênio criador daquele povo mediterrâneo em concebê-la.

Hoje, como naquela época, encontramos os fariseus da política, que ferindo os ideais da Democracia, utilizam-se dos artifícios da “Demagogia”, para iludir e “conduzir” a massa popular para a satisfação de interesses próprios, geralmente nocivos ao interesse comum.

Luís Inácio, o torneiro mecânico que um dia representou a classe trabalhadora e se tornou um líder popular, deixou que o poder lhe subisse à cabeça. Despiu-se da simplicidade que o tornou um ícone na política nacional e vestiu a roupagem da soberba colocando-se acima do bem e do mal. Não resistiu às tentações dos atos ilícitos e, corrompendo-se, destruiu-se a si próprio e a esperança de um povo que um dia acreditou nele. Ao negar exaustivamente sua participação e sua conivência com a ilicitude que se instalou no país, menosprezou a capacidade investigativa de uma Polícia Federal e de um Ministério Público operantes, de juízes isentos e competentes e, acima de tudo, do juízo severo de uma população decepcionada. Acreditou estar acima da lei e que jamais seria alcançado por ela. Uma pena não só para os seus seguidores, mas acima de tudo para o próprio país. Nenhum brasileiro sente-se bem ao ver um ex Presidente condenado e preso por corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa. Como figura política expressiva no Brasil e no mundo, o retirante nordestino Luís Inácio, que se fez tão grande, decepcionou a todos. Agora Inês é morta.

Seu grupo, antes coeso e poderoso e ideologicamente organizado, desarvorou-se com a queda do seu líder maior. Instrumentalizado para uma repetição exaustiva de falsos conceitos, tenta desesperadamente a volta ao poder, mas não possui a astúcia do antigo líder que dominava a arte da negociação, a ponto de perceber, após duas tentativas, que sendo impossível a sua eleição para Presidente, chamou para seu vice um grande empresário que, apesar de não ser uma força política expressiva, afastava o fantasma que atemorizava o empresariado nacional. Agora, sem o Luís Inácio livre para articular, a esquerda ficou perdida lamentando-se em uma infinidade de “se”: “Se o Luís Inácio não tivesse se deixado levar pela tentação, se não tivesse se despido da sua simplicidade, se não tivesse dado motivo para a sua condenação e prisão e se, acima de tudo estivesse à frente da campanha como candidato e com um vice politicamente mais palatável para o empresariado, talvez perdêssemos, ainda assim, a eleição, pois não há força capaz de deter o anseio popular pela mudança, mas a derrota não teria um sabor tão amargo motivado por um dever de casa não executado

AS LIÇÕES PRIMÁRIAS DA POLÍTICA

Adellunar Marge

A política é uma ciência que, em sua expressão mais pura, se aproxima da arte. Mao Tsé Tung disse certa vez que “a política é uma guerra sem sangue e a guerra é uma política sangrenta”. As campanhas políticas mudaram muito através dos tempos. O período dos Coronéis de patente comprada, surgidos a partir da época da Regência, onde os votos de cabresto eram definidos pelos donos das extensas propriedades rurais, permaneceu por muitos anos em nosso país, principalmente em nosso Estado de Minas. A nossa Constituição de 1934, embora redigida sob o império da ditadura getulista, deveria, através do voto secreto que implantava e do direito de voto às mulheres, proporcionar uma expressão mais democrática da preferência popular por um candidato. Mas não foi assim. A tradição autoritária do coronelismo e a subserviência de uma população ainda com baixo nível de esclarecimento, cristalizaram o sistema patrimonialista e paternalista herdado da colonização portuguesa. Infelizmente não nos tocara os ideais liberais de John Locke, ainda que o Marquês de Pombal tentasse, através da introdução dos ideais liberais de Luís Antônio Verney, mentor da educação no governo de Dom José I e da expulsão dos Jesuítas tanto do território português, como das colônias do além mar.

Se não deu certo naquela oportunidade, o tempo contribuiu para o amadurecimento da nação brasileira e, a despeito das diversas dificuldades de percurso, para a evolução do nosso  contingente eleitoral.

Hoje, as redes sociais, ainda que prejudicadas aqui e ali pelos “fake-news”, se incumbiram de informar melhor e em tempo real toda a população. As mentiras continuam como no tempo dos coronéis, a demagogia, sob as suas mais diversas formas ainda persistem nos profissionais da política, mas o eleitorado mudou muito e já possui um maior grau de discernimento como instrumento de escolha dos seus representantes nos diversos níveis dos poderes Legislativos e Executivos.

Hoje, em nosso país, há uma consciência geral e unânime na população de repúdio à corrupção e ao autoritarismo. Há uma vontade férrea e unânime por um Brasil diferente e por uma renovação nos quadros políticos. Basta observarmos a quantidade de políticos envolvidos, de uma maneira ou outra em corrupção, que não conseguiram a reeleição. Alguns, para conseguirem a manutenção do imoral foro privilegiado, mudaram suas candidaturas de Senadores para Deputados, em que a necessidade de voto é menor. Alguns, iludidos com a possibilidade de chegarem ao poder ou de manter o poder que já possuíam, desafiaram o veredicto popular e “deram com os burros n’água”, como no caso da Dilma e do Pimentel.

Mas o grande erro da esquerda brasileira está sendo justamente menosprezar a consciência coletiva que, mais bem informada, não quer a volta ao poder da corrupção e do autoritarismo truculento, das ameaças de invasões de terras e de imóveis; não aceita mais o quadro de violência urbana que aterroriza a população; ou uma crise econômica geradora de desemprego e desesperança para todos.

Afrontar a força de uma população tangida pelo descontentamento de mais de uma década é uma tarefa impossível. Já se foi o tempo em que se ganhava política com currais eleitorais ou com mentiras eleitoreiras. Sim, porque “fake-news” sempre existiram, ainda que não circulassem em redes sociais internéticas, mas circulavam de boca em boca, em panfletos anônimos ou nas palavras de palanque. É um vício tão antigo quanto o próprio homem que o inventou, mas que teve também a sabedoria de inventar as redes sociais, um veículo de informações instantâneas que mesmo com os riscos das notícias falsas, desarma com mais facilidade os demagogos de plantão que tentam galgar o poder. As redes sociais são hoje a voz do povo e os romanos já diziam: “Vox Populi Vox Dei”.

A TERRÍVEL ARMA DO VOTO

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Nos últimos anos os governos sempre procuraram impor o desarmamento da população civil, embora os bandidos continuassem cada vez mais bem armados, provocando a insegurança e o medo entre as pessoas de bem. Mas existe uma arma terrivelmente poderosa que os governantes não conseguem tirar da população, que é o voto, essa expressão da vontade pessoal livre e soberana que, por ser secreta, não se subordina à vontade de outrem. Pelo menos enquanto vivermos em uma democracia e em um Estado de Direito.

No primeiro turno, das eleições deste ano, presenciamos essa manifestação democrática de norte a sul do nosso país com o povo exercitando a arma do voto. Presenciamos e vamos continuar presenciando no segundo turno, um anseio profundo de mudança. A população, em sua grande maioria está dando um recado claro e objetivo aos políticos de que não aceita e não quer mais a continuidade da corrupção em nosso país.

Quando o Lewandovski não quis suspender os direitos políticos da Dilma por oito anos, como fora feito com Collor de Mello e qualquer político cassado, o povo não aceitou a decisão e, na primeira oportunidade que teve, usou a sua terrível arma e cassou, com o seu voto o seu pretendido mandato de Senadora por Minas Gerais. Foi infrutífera a benevolência do Lewandovski.

De norte a sul do país uma quantidade imensa de políticos tiveram os seus mandatos “cassados” pelo voto popular, como Lindberg Farias, Eunício Oliveira, Cássio Cunha Lima, Chico Alencar, Miro Teixeira, Pimentel, Romero Jucá, Edson Lobão, Eduardo Suplicy e tantos outros, alguns deles tangidos por acusações e ou processos de corrupção, escondiam-se atrás do manto protetor das imunidades e do Foro Privilegiado. Esses estão agora na fila para um encontro com o Juiz Sérgio Moro. O encontro está agendado a partir do dia primeiro de janeiro de 2019, em Curitiba, cidade símbolo da moralização e do encarceramento de integrantes de uma facção que dominou e corrompeu o nosso país por tanto tempo. O que não se pode negar é que o crime organizado que contaminou as instituições brasileiras foi de fato “democratizado”, tem entre seus integrantes representantes dos mais diversos partidos políticos. Foi um câncer em processo de metástase que se espalhou por instituições públicas e privadas, atingindo políticos e empresários, independente de sexo, cor ou convicções religiosas. Todos irmanados no ideal comum da corrupção. O povo não agüentava mais esse estado de coisas e está usando a terrível e saneadora arma do voto para mudar. O voto popular, livre e democrático é infenso a liminares de quaisquer instâncias, a posicionamentos pessoais de membros do STF, do STE, STJ e até de “puxadinhos” da ONU que queiram interferir na vontade do povo brasileiro.

Só uma coisa atrapalha uma higienização maior e melhor na política nacional: é o maquiavelismo de alguns políticos que, cientes da sua não re-eleição ao Senado, disputaram a vaga de Deputado Federal, como último recurso de, com menos voto, continuarem com suas imunidades e com o foro privilegiado. Quanto a esses, o Juiz Sérgio Moro vai ter que esperar mais um tempinho para pegá-los. Mas o Moro alia à sua competência, uma paciência de Jó.

Agora é aguardar o Segundo Turno. Parece que o anseio pelo fim da corrupção e o apoio à Operação “Lava a Jato” generalizou-se demais no seio da população e permanecerão como itens importantes no debate político, além, é claro, do apelo à moralidade, aos valores da família e os valores nacionais. Que, acima de tudo, Deus ilumine os eleitores nesta hora decisiva para o nosso país.

LUIZ GONZAGA DA SILVA, O NOSSO INESQUECÍVEL PROFESSOR

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Machado de Assis dizia que há pessoas que quando nascem não aumentam a população e quando morrem, também não a diminuem. Passam apenas pela existência como acidentes de percurso. Ah… mas existem aqueles que fazem a diferença pelo bem que fazem a uma sociedade. O Prof. Luiz Gonzaga foi um desses e deixou uma profunda saudade no coração daqueles que o conheceram.

Tive o prazer da sua amizade por longo tempo. Na Faculdade Santa Marcelina trabalhamos juntos por quase trinta anos e como aprendi com ele, um ícone da cultura e do conhecimento em nossa região. Os mistérios da existência, o destino final do homem, sempre ocuparam um lugar de destaque em suas preocupações e foram motores para a sua busca incessante. Foi em um desses momentos que o amigo Luiz Gonzaga escreveu duas cartas testamento. Uma para mim, outra para o Prof. Lúcio Gusman. Afinal, formávamos uma tríade de amigos na Faculdade e em nossos lugares cativos no Refeitório daquela instituição, na hora do intervalo entre as aulas, discutíamos os mistérios insolúveis da existência humana. Nunca chegávamos a um acordo, mas a procura jamais cessava em nenhum de nós.

A carta, datada de 03 de maio de 1985, dia em que o Luiz completava 43 anos de idade, guardada em uma gaveta da minha biblioteca, trazia já as páginas e o envelope amarelecidos pelo tempo, mas estava lacrada como a recebi há 33 anos com a assinatura do Luiz em todas as bordas do seu fechamento. Não posso negar que foi com um profundo sentimento de perda e de tristeza que recebi, no início da manhã do dia 28 de setembro último, a notícia do falecimento do grande amigo. Fui a minha biblioteca, retirei o amarelado envelope de dentro da gaveta, contemplei por um tempo suas assinaturas que lacravam as  bordas e o abri. Suas palavras, dirigidas a mim, me dignificaram muito além do meu merecimento, mas as suas recomendações para o adeus ao seu corpo foram precisas e metódicas como tudo que ele fazia em vida.

Agora passo para a proximidade da primeira pessoa e me dirijo a você, amigo. A leitura de uns Salmos e de uma passagem de João seriam missões fáceis se você, amigo Luiz, metódico e exigente como sempre foi, não as quisesse tiradas de uma Bíblia de mil novecentos e guaraná de rolha, traduzida por João Ferreira de Almeida, no início do século passado que , ainda bem, encontramos em sua própria Biblioteca, ou por obra do acaso ou por sua intervenção espiritual, não sei. O certo é que cumprimos as suas determinações. As leituras foram feitas, as flores brancas e amarelas cobriram o seu corpo. Tudo como você pediu. Quanto às lágrimas e o embargo da voz, que você não queria, sinto muito amigo, mas não demos a você o direito de impedi-los.

Veja, Luiz, não foi difícil seguir as suas recomendações. Difícil vai ser suportar a sua ausência. Sei que a saudade vai bater em cada momento em que o recordarmos em cada um dos lugares em que você passava, nas receitas de Tomate Seco e da Torta de Maçã da Dona Nair que você nos passava. Ali você estará, indiscernível. Muriaé, meu querido amigo Luiz,  não vai ser mais a mesma. Falta alguém pelos corredores da Faculdade, falta alguém transitando entre as gentes nos dias de feira. Mas quer saber de uma coisa, já saudoso amigo? A dor da perda vai ser sempre amenizada pelas lembranças que você deixou. Ninguém lembrará da sua morte, mas levaremos sim as lembranças da sua vida, das suas aulas, do seu jeito solícito de lidar com os alunos e os amigos, dos seus passeios semanais pela feira, chamando cada feirante pelo nome, do seu desjejum com os pasteis e churrasquinhos que entupiam as suas coronárias mas arrancavam o sorriso dos feirantes que o serviam.

Ah Luiz…se existe vida depois dessa existência (e torço para que exista), agora você poderá caminhar à vontade sem os incômodos da sua dolorida artrose. Arranje com o Lúcio uma mesinha à sombra, com três lugares e me aguardem. Temos longos papos para colocar em dia. Mas como você sabe, querido Luiz, sempre fui um existencialista incorrigível e valorizo muito a vida por aqui. Por isso, não se espantem se eu demorar ainda um pouco para chegar…

O CONSERTO DO BRASIL

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Não resta dúvida que em nosso país as instituições políticas sempre foram propensas a desvios morais, desde longa data. Herdamos da pátria colonizadora certos hábitos de paternalismo, em que a população sempre procurava encontrar no governante o salvador da pátria, aquele em que poderíamos e deveríamos depositar todas as esperanças para a solução dos problemas econômicos e sociais da nossa terra.

Essa herança cultural foi aperfeiçoada e levada a um extremo tal que a população muitas vezes se transformou em “massa de manobra” para políticos e partidos inescrupulosos chegarem ao poder e sugarem até à exaustão os recursos públicos.

Um tal estado de coisas é algo que só se altera através da educação, tanto a formal, informativa, como a de berço, gestada nos lares de cada um e, esta principalmente, formadora da base moral da população. Isso seria um instrumento de defesa contra os demagogos e pregadores de políticas assistencialistas. Aqueles que se beneficiam das dificuldades do país e distribuem migalhas de assistência em troca dos votos que os mantém no poder. São o que chamamos “caftens das desgraças alheias”.

A situação chegou a um tal estado no Brasil de nossos dias que o reparo vai ser difícil. Seria como consertar um carro velho, com centenas de peças danificadas, motor passando óleo e os pneus carecas. Mas um país não é um carro e nós não podemos e nem queremos comprar um país novo. Queremos este nosso Brasil, com todas as suas mazelas, mas também com todas as suas potencialidades geográficas e humanas.

Mas em termos de política partidária a nossa “Terra de Santa Cruz” está difícil de consertar (com S). O comum e usual no sistema político em nosso país tem sido mesmo o concerto (com C) entre as agremiações partidárias para se chegar ao poder com o mínimo de esforço possível e sofrendo as mínimas conseqüências pelos atos de corrupção cometidos. Com o conserto (com S) poderíamos eliminar da política, através do voto por exemplo, os atores do maior esquema de corrupção ocorrido no Brasil nos últimos 13 anos, um processo de desvio moral que escandalizou o mundo e transformou o nosso país em motivo de chacota entre as demais nações.

Mas eleição, principalmente para Presidente da República, em dois turnos, leva ao enorme risco de “concertos” entre partidos, com ofertas de Ministérios, cargos em segundo escalão e outras benesses, para se conseguir apoiamentos e garantir a vitória. Não se espantem se estiver no rol das ofertas indultos a condenados. É dar muita chance para o diabo agir. Aí “ficaria tudo como dantes no quartel de Abrantes”. Daí o extremo perigo de eleições em dois turnos em países com instituições políticas ainda imaturas e frágeis como o nosso.

Basta um engano em uma tomada de decisão na hora do voto, movido pelo fanatismo ou por interesses escusos, para causar um mal de difícil “conserto” no futuro, com um preço a pagar muito alto para uma população inteira, já sofrida com o desemprego e com os sistemas precários de saúde, educação e segurança. Menos, é claro, para aqueles que se locupletaram com as ilicitudes de quase uma década e meia de poder e de desmandos e se acostumaram com as tetas generosas do poder. Esses velam e orquestram uma sinfonia diabólica pelos seus interesses.

Há poucos dias vi nas redes sociais algo que chamou a atenção de todos que viram. Falava-se sobre aquela célebre pergunta feita por Pilatos há mais de dois mil anos: “Quem vocês querem que seja solto, Jesus ou o ladrão Barrabás”. A massa, induzida pelos farizeus dispersos entre ela,  pedia a soltura do ladrão Barrabás.

Não temos em nossa política nenhum Jesus, é claro. Mas Barrabás, temos aos montes, resguardadas raríssimas exceções.

NO TEMPO DAS CALÇAS CURTAS

Adellunar Marge

Naqueles tempos (que na memória vão tão longe que quase se perdem na lembrança) a infância era bem diferente. Nem pior, nem melhor, apenas diferente em razão do tempo. Andávamos de calças curtas com suspensórios de pano, com dois bolsos espaçosos, capazes de conter todos os tesouros de uma criança da época: uma atiradeira com gancho de esperta e elásticos de câmara de ar de bicicleta, bolas de gude, algumas tampinhas de cerveja e um peão de Cabiúna com ponta de aço afiado, capaz de aceitar qualquer desafio nos torneios de calçada.

Andávamos descalços, pegávamos passarinhos em arapucas de bambus para depois… logo depois, devolvê-los à liberdade, só pelo prazer da astúcia de garoto. A prisão temporária eram caixotes de “Maisena” telados de um lado, de onde os aflitos coleirinhos e rolinhas, espreitavam a liberdade que viria logo, sem necessidade de HC no STF.

As ruas, com raríssimos automóveis, com calçamento de paralelepípedos, se prestavam a campos de “pelada” com “bolas de meia” e balizas demarcadas com dois tijolos. De quando em quando era um dedão machucado, uma unha quebrada nos ressaltos do calçamento. A Desembargador Canêdo era o nosso Estádio de todos os dias. Nos dias de chuva o andar pelas enxurradas no canto dos meio-fios, a bronca das mães e as gripes e resfriados que terminavam em agulhadas dolorosas de Benzetacil. Mas como falava o poeta português Fernando Pessoa, “tudo vale a pena, se a alma não é pequena” e não existe alma maior e mais pura do que a de uma criança.

Aí, vinha a adolescência, as primeiras espinhas no rosto, o despertar da sexualidade, as leituras noturnas das revistas do “X-9”, do “Tarzan” e a transição difícil e necessária para o jovem adulto que surgia. Com o adulto, as primeiras manifestações de vaidade, a grudenta Brilhantina Glostora, os pentes de osso no bolso de trás da calça, sapatos engraxados e o olhar atento nas meninas. Nos finais de semana os bailes ou “brincadeiras” nas casas de família, com uma Eletrola sempre a embalar os nossos sonhos com os memoráveis Boleros em 78 rpm, de uma Cuba ainda não destruída pela ditadura Castro. Uma vez ao ano o memorável Carnaval no MTC. Eram sim bons tempos. Não que os de hoje também não o sejam. Cada época tem os seus encantos e os seus desencantos. É claro que as crianças e muitos adultos de hoje não conheceram os motores a pedal dos dentistas de antigamente, os tratamentos de canal com óleo de cravo, as embrocações das amígdalas com iodo e as mulheres nem sonham com os partos dolorosos e traumáticos com “fórceps”. É, têm coisas que, definitivamente, não deixaram saudades mesmo.

Mas na política a saudade permanece. Saudade daqueles vultos de fibra e conhecimento que nos representavam no Congresso Nacional. Quando lembramos de nomes como Afonso Arinos de Melo Franco, Gustavo Capanema, Otávio Mangabeira, Milton Campos, Célio Borja, Nelson Carneiro, entre tantos outros, não resistimos a comparação com a quadrilha do “mensalão” e do “petrorrombo” que assaltou os cofres públicos e amesquinhou as nossas instituições nesses últimos treze anos. Alguns já estão presos e cumprindo pena por corrupção, lavagem de dinheiro e associação criminosa, mas outros, por morosidade ou recursos da lei, ainda estão soltinhos por aí. Mas querem voltar ao poder a todo custo, contando com a patológica ideologia de uma minoria da população. O pior é que eu nunca confiei nas urnas eletrônicas. Por que os países mais adiantados do mundo não as usam ? Será que nós somos os supra sumos da inteligência e da vanguarda tecnológica? Tenho saudade daquelas cédulas de papel que podiam ser contadas e recontadas até não pairar mais nenhuma dúvida sobre a expressão da vontade popular.

 

UM ATENTADO À DEMOCRACIA

Adellunar Marge

Muito mais do que um atentado ao candidato Bolsonaro, o lamentável episódio da facada foi um atentado à Democracia e ao Estado de Direito em que vivemos. As investigações estão em andamento para se apurar se foi um ato solitário ou um ato orquestrado e é necessário que se apure, pois paira sobre o caso uma nuvem de incertezas. A alegação precipitada e quase imediata dos advogados da insanidade mental do autor do atentado, é estranha, uma vez que o tal Adélio Bispo possui curso superior de Pedagogia e era militante da esquerda. É claro que um curso superior não isenta uma pessoa de possuir alguma insanidade mental, mas é necessário que se apure a fundo. No lamentável assassinato da Vereadora Carioca Marieli, do PSOL, a própria imprensa exigiu uma apuração rigorosa para se chegar a possíveis ou pretensos mandantes. Nada mais natural que se faça o mesmo em relação à facada desferida no candidato, independente do partido a que pertença.

O estabelecimento de um Estado Democrático de Direito é uma conquista árdua de uma nação, resultado de muita luta. Felizmente a esquerda brasileira não conseguiu, durante e após o desgoverno João Goulart, fazer do Brasil uma “Ditadura Comunista” nos moldes de Cuba. Recentemente o Brasil passou por um período de intensa corrupção que solapou a nossa economia e envergonhou o nosso país diante do mundo. A irresponsabilidade ética nos poderes Executivo e Legislativo destruiu grande parte do patrimônio de Estatais, com rombos que escandalizaram o mundo. A Operação Lava a Jato tem sido um alento e uma esperança para o povo brasileiro que acredita que a justiça irá prevalecer sobre a desonestidade de inúmeros políticos e empresários. Mas essa Operação, com um trabalho e desempenho brilhante de competentes juízes, promotores e da eficiente Polícia Federal pode ir por água abaixo e decepcionar os milhões de brasileiros que mantém acesa a chama da esperança de um país mais justo e mais humano para aqueles que virão depois de nós.

Não podemos permitir que o desespero de alguns comprometa a estabilidade do nosso país e o mergulhe em uma crise institucional que seria nociva a todos.

Faltam poucos dias para as eleições. Os candidatos estão aí à nossa frente com suas idéias e plataformas. Temos a vantagem de conhecer grande parte deles e optar por aqueles que acharmos melhor para o nosso país. Em um período crítico, como esse em que vivemos, o zelo maior deve ser com as instituições, principalmente com a família, a célula principal de uma sociedade. Se esta se desmorona e se corrompe, todo o resto de compromete.

Infelizmente, em um país que se caracterizou desde sempre, mas principalmente nos últimos treze anos, pelos “mensalões” e acordos políticos para a conquista e manutenção do poder, a eleição em Segundo Turno passa a ser um risco à integridade moral do país. As ofertas de Ministérios e altos cargos é sempre comum para a formalização de alianças ou apoiamentos. É nesse momento que se unem os mais diversos interesses e as mais distintas ideologias com o objetivo único de se chegar ao poder. Depois, na hora da partilha dos espólios, visa-se o bem próprio e não o comum, subtraindo-se recursos preciosos que poderiam e deveriam ser empregados na Educação, na Saúde e na Segurança Pública.

Será que o povo já se esqueceu do rombo da Petrobrás, cujo montante foi maior do que o PIB da maioria dos países do mundo e considerado o maior roubo de recursos públicos de todos os tempos ? Acredito que não e ainda está vivo na memória popular os nomes dos corruptos, alguns condenados e outros ainda em fase de processos.

Mas a lei permite o Segundo Turno e é nosso dever segui-la, mas isso não impede de exercitarmos a nossa opção do voto livre e democrático para levarmos ao poder aqueles que entendemos serem os melhores, entre as opções que nos são oferecidas. Mas em benefício das nossas famílias e do nosso país temos que promover uma mudança radical na regra perversa do jogo político.