Os males da ambição desmedida

Para que o homem progredisse sobre a face da terra, desenvolvendo-se em conhecimento, tornando-se um ser ímpar entre os demais animais, a natureza dotou-lhe, entre outros predicados, da ambição. Por querer sempre mais na sua trajetória de vida, o homem tem dominado gradativamente os elementos e transformado o mundo em que vive. Passou a ser, no dizer de Protágoras, “a medida de todas as coisas”. Não se contentou, como a abelha, em satisfazer-se com a mesma maneira de construir a sua colmeia há milhares de anos.

Da pedra lascada à pedra polida, do ferro às mais complexas ligas metálicas, o homem não colocou limites em suas conquistas e saiu das cavernas obscuras da antiguidade para as megalópoles modernas, transportando-se por terra, pelos mares e pelo ar. A ambição, a vontade de crescer e aprimorar-se o levaram a esse destino inexorável.

Para que o homem exercitasse essa ambição, a natureza deixou os limites do seu exercício a cargo do seu próprio juízo, do julgamento do próprio homem. Daí, foi um pulo para que muitos exercitassem a ambição desmedida, excedendo os limites da moral e da dignidade. Não culpem o capitalismo por isso, pois o capitalismo não é um modelo econômico, é um modo de ser do homem e, quando livremente exercitado, um mal para a sociedade.

Ambiciosos nocivos, conhecemos às centenas transitando entre nós. Seres com a mente fixada na ganância e, consequentemente, na irresponsabilidade social. Acumulam a riqueza ainda que em detrimento da miséria alheia e muitas vezes pautada na desonestidade de princípios. Essa ambição desmedida acaba se transformando em um distúrbio psíquico que leva o ambicioso a pensar 24 horas por dia em aumentar a sua riqueza. Ainda que dormindo, sonha com isso.

Quando esse comportamento vicioso se alia à política, dá no que assistimos hoje no Brasil: uma sucessão de escândalos e roubos milionários de recursos públicos. Não tem limites em sua sanha de acumular riquezas e não os tem porque justamente conjugam dois fatores mortais para a paz e a felicidade de uma comunidade: a imoralidade e a amoralidade.

É difícil para o nosso país sair com honra dessa crise moral em que se meteu, na medida em que uma presidente, que já deveria ter caído há muito tempo, tem a sua queda dependente de um político envolvido nas mais graves acusações de corrupção. Um Congresso em que ninguém sabe quem é quem ou, como já se disse, uma situação em que “uma vaca não conhece a própria cria”.

O mais grave é que esse caos moral não se restringe às esferas de Brasília, mas percorre as artérias político-administrativas e empresariais do país, com uma infinidade de corruptos e corruptores que se alastram pelos estados e pelos municípios. A imoralidade em processo de metástase.

Esses são alguns dos males da ambição desmedida, e ao povo caberia o único recurso de defesa, que seria o exercício da crítica na hora de voltar. De época em época temos essa oportunidade que a democracia nos oferece, e de época em época cometemos os mesmos equívocos de julgamento. No próximo ano teremos uma nova oportunidade. Que tal pautarmos as nossas escolhas pela dignidade moral dos candidatos?

Assuntos que incomodam

Havia uma professora de inglês, lá pelos anos 70, muito inteligente e espirituosa. Seu nome era Márcia e ministrava aulas excelentes na Faculdade Santa Marcelina. Era amante da Literatura de um modo geral, mais especificamente da Literatura Inglesa e transitava com desenvoltura pelas obras de Shakespeare, Walter Raleigh, Allan Poe e tantos outros. Costumava dizer que não gostava daqueles sonetos que, em seu último terceto, traziam sempre um conselho moral do autor, como se ele fosse o senhor da verdade e da experiência existencial.

De época em época, principalmente em momentos de crise no mundo, aparecem aquelas enxurradas de frases feitas, de pensamentos “levanta ânimo”, dos mais diversos autores. Hoje, então, as redes sociais têm sido o veículo por excelência para a divulgação desses textos. E eles se repetem, pois as redes de WhatsApp se encarregam de divulgá-los e, às vezes, recebemos o mesmo texto várias vezes, remetidos por vários usuários da rede.

Alguns vêm escritos com um fundo musical apelativo, outros, narrados por aquelas vozes de locutores de rádio, empostadas e com entonações sentimentalistas para levarem os ouvintes às lágrimas. É claro que o efeito não é produzido propriamente pelo texto ou pela voz do narrador. O efeito é produzido justamente pelo estado de espírito do ouvinte, por sua fragilidade psicológica no momento, por sua carência afetiva.

Eu sei que muitos leitores não vão concordar comigo e podem até argumentar que esses textos ajudam as pessoas a saírem daquele buraco existencial em que se meteram, na maioria das vezes, por sua própria culpa. Mas é que chega um momento em nossa vida, talvez pela idade, pela experiência dos anos vividos ou por outros fatores, em que a gente passa a ser demasiadamente crítico e a desconfiar de frases milagrosas. A palavra, como já disse em crônica anterior, é um instrumento maravilhoso e sempre me atraiu. Gosto de estudá-la nos diversos significados que assume em um texto, estudar-lhe a etimologia, com o objetivo principal de conhecer melhor o seu poder de expressar o pensamento, ainda que tenha consciência de que a palavra não consegue traduzir com fidelidade tudo aquilo que pensamos. Primeiro porque o pensamento é muito denso e muito rápido e, segundo, porque a palavra não é o elemento ideal para essa função. Mas enquanto não dominamos a arte de conversarmos pelo pensamento, a palavra ainda é o melhor meio que temos para nos comunicarmos, porém é um instrumento muito valioso para ser usado em frases fúteis e apelativas. Para ser mal usada, é melhor que a deixemos quietinha no cemitério estático dos dicionários até que um bom pensamento a reclame para se expressar.

Enquanto isso, vamos recebendo centenas e centenas de pensamentos, frases e dizeres em nosso WhatsApp ou e-mail tentando nos “ensinar a viver”. Aí eu me lembro da adorável professora Márcia quando falava do último terceto daqueles sonetos.

Já tenho o hábito de, ao ler esses tipos de sonetos, interromper a leitura após o segundo terceto. Normalmente já sei o que vem depois.

Falei dessas frases e ditados, mas tem um ditado antigo que ainda sigo em minha trajetória existencial: “Não preciso que me apontem caminhos, eu sei errar sozinho”. Mas aqueles “pensamentos” que recebo no WhatsApp são demasiadamente numerosos e a velocidade com que são mandados é muito superior à minha velocidade para deletá-los. Preciso dar mais agilidade aos meus dedos para compensar essa diferença.

A palavra

A palavra é uma necessidade humana. Uma necessidade que surgiu no momento em que o homem precisou transmitir ao outro o seu pensamento. Iniciada tropegamente com a imitação dos sons daquilo que queria representar, aperfeiçoou-se com o tempo, tentando desesperadamente traduzir o complexo e denso pensamento humano.

Além de instrumento de expressão do pensamento, ainda que incompleto e falho, como diria Augusto dos Anjos, pois “tropeça no molambo da língua paralítica”, as palavras, quando articuladas em frases de efeito, passam também a satisfazer certas necessidades interiores do homem, confortando-lhe o espírito e preenchendo as lacunas resultantes de carências afetivas, de problemas interiores mal resolvidos. Por isso, a palavra age naquele que a emite e naquele que a escuta, satisfazendo um e outro.

Diz um texto religioso que “no princípio era a Palavra… e a Palavra estava com Deus… e a Palavra era Deus”. Nomeada como “Logos” grego ou como “Verbo” latino, a palavra tem sido na história humana esse misterioso e formidável elemento que diferencia o homem dos irracionais. Palavra e pensamento se confundem.

Os ditados, frases ou pensamentos colocados na boca de personagens, os mais diversos, cumprem um papel social de significativa importância. São verdadeiros fármacos existenciais, bússolas orientadoras de comportamento. Quem nunca citou uma frase famosa, recitada com efeito e eloquência, para embasar uma opinião ou um ponto de vista? “Chamam os rios de violentos, mas não chamam de violentas as margens que o aprisionam” (B.Brecht), “O homem nasce bom, é a sociedade que o corrompe” (Rousseau) e tantas outras pérolas que, ao longo da vida, vão embasando nossos atos e opiniões e dando sentido à nossa existência.

Na realidade, as pessoas, impotentes diante da realidade, se apegam a essas frases como os crentes se apegam às orações, para compensarem suas limitações interiores.

Nem sempre algumas frases são atribuídas aos seus autores verdadeiros. Por desconhecimento ou intencionalidade, trocam-se os autores, mas o pensamento expresso continua gerando os seus efeitos animadores, tonificando a vida. Quantos citam “Navegar é preciso, viver não é preciso” como uma pérola de Fernando Pessoa, e desconhecem que essa citação é do general romano Pompeu, que a pronunciou por volta dos anos 70 a.C., na Sicília, para animar os seus soldados quando embarcavam nos navios para levar trigo à Roma, diante de uma violenta tempestade. “Navigare necesse est, vivere non est necesse”, disse o general romano. E há os que afirmam que essa frase já era de domínio público na Grécia antiga.

As palavras sempre moveram o mundo, tanto para o bem como para o mal. Transitaram pela boca de santos e profetas, de idealistas sinceros e de demagogos e tiranos e, por serem assim tão poderosas, continuarão sendo o instrumento fundamental das relações humanas.

Certa vez, quando trabalhava em uma empresa no Rio de Janeiro, no idealismo dos meus 25 anos, coloquei sob o tampo de vidro da minha mesa de trabalho uma daquelas frases lapidares. Ao passar pela minha mesa, o diretor administrativo da empresa, com a experiência dos seus 70 anos, olhou para mim, apontou para a frase e disse em tom sentencial:

– “Palavras são palavras… nada mais que palavras, e quando você tiver a minha idade vai compreender isso…”.

Hoje, já passei da idade que ele tinha, mas continuo, como na minha juventude, cultuando a palavra e acreditando no formidável poder que ela pode ter no destino dos homens…

Recordações

À Madalena

Ela não gostava que lhe chamassem de “bibliotecária”. Achava o termo vulgar e pouco ilustrativo da sua esmerada formação. Cursara Biblioteconomia em uma universidade federal, naqueles tempos em que aqueles centros de ensino superior, ainda não abastardados pelas cotas, guardavam ainda a qualidade e a imponência da “Universitas”. Por isso, gostava de ser chamada de “bibliotecônoma”, um nome mais estiloso para quem dominava a ciência da classificação e catalogação dos livros. Nesta função, Datinha (apelido familiar de Maria das Graças), mergulhava dentro daquelas obras e transitava por suas páginas com a segurança de quem dominava o assunto. A Biblioteca Nacional já era a maior e a mais conceituada do país e uma das grandes referências na América Latina e no mundo, e era ali que aquela jovenzinha de olhos vivos e penetrantes, com menos de 1,60m de altura, passava os dias em seu trabalho.

Datinha, com seus 26 anos, era muito diferente de uma intelectual estereotipada. Era avançada para aqueles idos da década de 70. À noite, andávamos ali pela orla de Copacabana, tomávamos um Cuba-Libre no Tip-Top da Constante Ramos e, depois, só nós dois sabíamos o destino da noite. Era um tempo mágico em uma cidade mágica. As noites eram crianças embaladas por nossos sonhos. Parecia que o destino nos reservava uma longa vida a dois, quando olhávamos aquela lua enorme refletida nas ondas calmas da praia do Leme. Mas a vida tem mistérios insondáveis e atalhos que nem sonhamos.

A cada mês eu vinha a Muriaé rever a família. Vinha na sexta-feira e voltava na noite de domingo. Revia alguns amigos, revisitava o Bar Oásis, ícone da nossa juventude, degustava um “San Raphael” ou um “Madeira R”, e quando menos esperava estava voltando ao Rio e a minha rotina diária. E Datinha lá… me esperando com o seu carinho e aqueles papos agradáveis sobre literatura que completavam a noite. Aquelas idas e vidas entre Muriaé e o Rio se repetiam, dividindo-me entre uma vontade de ficar e uma vontade enorme de voltar.

Mas os mistérios da vida nos surpreendem. Numa dessas viagens, conheci, na casa de meus pais, uma jovem pianista. Aqueles dedos longos e finos que percorriam as teclas daquele piano, menos do que as notas, tocaram o meu sentimento. E Datinha lá… me esperando com o seu carinho e aquelas aulas de literatura… Mas a melodia penetrava-me o espírito e o enchia de dúvidas. Aquela moça de cabelos negros como a noite, com um sorriso tímido e recatado, olhava para as pautas e para mim. Na semana seguinte eu voltei… e na outra também e saímos… e fomos ao Pilão e as cartas passaram a nos ligar e encurtar a distância que nos separava.

Durante três meses eu vivi a dúvida cartesiana entre a Datinha e o novo amor que nascia. Mas era impossível dividir a alma em duas e, de repente, guardei a Datinha num daqueles armários que se guardam recordações, até que se apagasse da minha memória como a chama de uma vela que se exaure.

Aquela moça de cabelos negros como a noite e aquele olhar profundo que tocou a minha alma no primeiro instante, continua ao meu lado há 43 anos. Seus cabelos já não são negros como eram, mas suas mãos, ainda que trazendo a marca dos anos, guardam a mesma beleza e suavidade quando me tocam e seus olhos guardam ainda (e como guardam) o recato e a timidez daquele primeiro dia.

Ah… se não fosse ela, eu não teria os filhos que tanto amamos e um neto que nos enche a existência de prazer e de esperança…

As meninas do casarão

Era um mundo à parte as noites na Avenida Freitas. Para aquela avenida afluíam jovens e velhos em busca do prazer ou da atenção momentânea daquelas mulheres de vida não tão fácil como diziam as pessoas. Um prazer ou uma atenção pagos à vista, dentro das normas e tradições do mais antigo comércio do mundo. O sonho de todo jovem era se tornar adulto e poder penetrar nos mistérios daquela avenida e, quando o fazia, sentia-se homem feito, senhor de si mesmo, ainda que os poucos anos de vida e de experiência não lhe tivessem conferido ainda o amadurecimento existencial. Esse, conquistaria aos poucos, com o passar dos anos e das vivências.

Os motivos que levavam aquelas mulheres a comercializarem o próprio corpo eram os mais variados possíveis e ali, sob as luzes vermelhas do Casarão ou do Sobrado, entre copos de cerveja ou de Traçado, a gente ouvia aquelas histórias de vida, atentos e comovidos. Algumas soando verdadeiras como íntimas confissões. Outras, tão falsas como o amor momentâneo que elas simulavam e vendiam aos clientes da noite.

A missão de uma “mulher da vida” ia, às vezes, muito além dos prazeres do leito. Costumavam ser confidentes, conselheiras, psicólogas e, com anos de leito, algumas delas conheciam como ninguém os segredos da alma humana. Entre um sorriso tímido ou uma gargalhada espontânea, costumavam desvelar também um pouco da sua própria alma e se revelavam como seres de sentimento, com sonhos e esperanças. Nem sempre eram as almas devassas que a hipocrisia social condenava e discriminava. Eram mulheres, e como mulheres, também cultivavam vaidades e meiguices.

Quando iam aos bazares para comprarem tecidos e utilidades, eram atendidas no fundo das lojas, longe da vista e da censura das senhoras e senhoritas da sociedade, uma sociedade que sabia da sua existência, aceitava o seu dinheiro, mas, hipocritamente, as discriminavam como uma nódoa social… uma aberração.

Os nomes daquelas mulheres quase sempre eram outros. Vinham de outras cidades, fugindo de um destino e em busca de outro, trazendo mágoas e recordações e, instaladas naqueles antros da Avenida Freitas, acreditavam conseguir dias melhores. Janete, Rosário, Das Dores, qualquer que fosse o nome, as histórias eram quase sempre as mesmas.

Os bailes no Casarão eram animados. O Oswaldo, no violão elétrico, o João, no pandeiro, um ritmista que fazia misérias na bateria, interpretavam os boleros famosos da época: La Barca, Frenesi, Três Palabras, Dos Almas, Besame Mucho… e tantas outras pérolas da música latina. Aquelas mulheres, também excelentes dançarinas, nos ensinavam a arte da dança naquele imenso salão à meia luz com o ar impregnado pelo odor de perfumes baratos ou, às vezes, de um “Suspiro de Granada”, um “Coty” ou aquelas brilhantinas perfumadas que usávamos para fixar o cabelo.

Aquelas antigas mulheres foram substituídas por sua versão moderna: as garotas de programa, com fotos em sites e whatsapps e com corpos esculturalizados por silicones e os milagres das plásticas modernas. Talvez possam ter se especializado até mais na arte do prazer, mas não sei se conseguiram manter o charme e o encanto das antigas “damas” da Avenida Freitas…

Magrelo e o angu

Eram tempos piores, sem dúvida. Benefícios sociais e garantias trabalhistas eram uma utopia, presente apenas na cabeça de um ou outro idealista. A realidade era dura, como havia sido desde sempre. A elite ruralista se enriquecia à custa de trabalhadores mal remunerados, endividados pelas cadernetas de compras nos “armazéns” das fazendas e assistidos em suas doenças por farmacêuticos e ervas caseiras. Médicos eram só para as elites. Eram heranças de um tempo de nobres de brasões esmaecidos, de coronéis de patentes compradas e de vícios sociais cujos reflexos estão ainda presentes na vasta trama social da sociedade brasileira. Eram esses aqueles tempos…!

Ainda era madrugada e os dois amigos já estavam no batente da lavoura. Começavam a labuta por volta das 4 horas, quando o dia ainda estava escuro e esticavam o serviço até às 10 horas, quando o menino trazia os dois caldeirõezinhos com a boia. Dentro do caldeirão havia sempre a mesma comida: arroz, feijão, um pouquinho de taioba e um generoso pedaço de angu. Carne? Talvez uma vez por mês um pedacinho de frango.

Zeca Tião e Bibide trabalhavam juntos há muitos anos, desde os tempos de menino e todos os dias levavam com eles o Magrelo, um vira-latas magro como um fiapo. Enquanto Zé e Bibide roçavam o pasto ou capinavam a lavoura, Magrelo ficava deitado à sombra de uma ou outra das raras espertas dispersas pelo pasto. A fome naquele cão ossudo era visível em sua magreza, no andar desconjuntado e em seus olhos fundos e tristes. Reflexos do mau passadio dele e dos seus donos.

De hora em hora os dois companheiros interrompiam a faina, apoiavam o sovaco no cabo da enxada, cortavam o fumo de rolo com o velho e afiado canivete e começavam a arte de enrolar o cigarro naquela fina lâmina de palha de milho. Depois, lambuzavam as bordas da palha com a saliva grossa, passavam a palha pelos beiços, fechavam o cigarro e estava pronto o pito. Depois pitavam por algum tempo sentindo o aroma do fumo goiano que se espalhava pelo ar como um incenso. Só então pegavam o resto da guimba apagada, prendiam por trás da orelha, davam uma cuspida nas palmas das mãos e as preparavam de novo para o envernizado cabo da enxada ou da foice, conforme a precisão do momento.

As mãos de um trabalhador do campo são um documento da sua luta diária. Houve tempo em que os homens da lei, ao efetuarem uma batida policial, conheciam pelas mãos a diferença entre um trabalhador e um malandro.

Zé Tião e Bibide já estavam de estômago fundo quando o menino da boia chegou. Encostaram as ferramentas, refrescaram a garganta com a água fresquinha da moringa de barro e se prepararam para matar a fome. Magrelo olhava para o caldeirão de comida e salivava. O caldeirão não trazia surpresas, era sempre a mesma comida. Os dois homens saciaram a fome enquanto o magro cão os observava. Depois, Zé Tião pegou uma profunda lata com água até o meio e jogou dentro dela um pedaço de angu. Era o almoço do faminto cão. Para chegar ao angu, Magrelo tinha que beber os quase três litros de água que o separavam do alimento. O pobre cão, já enfastiado de tanta água, chegava até aquele pequeno pedaço de angu, que daria para enganar a sua fome até a próxima refeição…

Rouen, no destino de Joana D’Arc

A cidade de Rouen, capital da Normandia, na França, impressiona pela riqueza de suas construções medievais e pela carga histórica que carrega.

O que me despertou a vontade de conhecer Rouen foi ter conhecido Blois, outra histórica cidade francesa, envolta também em lendas e mistérios. Ali, em Blois, Joana D’Arc nasceu e organizou suas tropas para atacar Orleans e iniciar a sua série de vitórias à frente dos franceses, pela libertação do país. Quando Joana foi capturada por aliados dos ingleses, foi entregue ao Tribunal Eclesiástico de Rouen, que a condenou à fogueira. Por isso a vontade que tive de conhecer Rouen, que marca o epílogo da história da jovem guerreira que foi queimada viva na praça principal da cidade, que hoje é a capital da Normandia.

Rouen ou Ruão, como dizem os portugueses, foi fundada pelos romanos no séc. I d.C.

No séc. IX, foi invadida pelos Vikings, chamados posteriormente de Normandos, verbete derivado do latim medieval “Nortmannus” e a partir do franco “Nortmann” ou “homens do norte”. O Rei Carlos III, vendo que era impossível manter a soberania naquela região do baixo Sena, cedeu aos Vikings ou Normandos e a região passou a se chamar Normandia. A Normandia só voltaria ao domínio francês em 1204, reconquistada por Felipe II.

Rouen, hoje com cerca de 600 mil habitantes, é uma cidade de grande importância, tanto no aspecto econômico como no aspecto estratégico. Foi na Normandia que se deu o desembarque das tropas aliadas para expulsar os alemães do território francês durante a Segunda Guerra Mundial. Na Batalha da Normandia morreram cerca de 100 mil pessoas, entre soldados e civis.

O importante da cidade, em seu aspecto turístico, é o seu centro histórico com suas construções medievais, o famoso “Relógio Dourado”, o Palácio da Justiça, a famosa Catedral que, semidestruída nos bombardeios da Segunda Guerra, foi toda restaurada, mas guarda ainda em sua ampla fachada de granito as marcas de balas da guerra contra os alemães. No centro histórico está também a “Praça do Velho Mercado”, ao lado da moderna Igreja de Santa Joana D’Arc. Exatamente no lugar onde se ergue a igreja localizou-se a fogueira que queimou viva a jovem Joana D’Arc, às 9 horas da manhã do dia 30 de maio de 1431, que contava na época 19 anos de idade.

Joana D’Arc foi condenada pelo Tribunal Eclesiástico por assassinato, heresia e bruxaria. Vinte e cinco anos depois, em 1456, o Papa Calixto III reconheceu o erro da Igreja e inocentou a heroína, anulando o processo por vícios no conteúdo e na forma. Um gesto de “mea culpa” que, infelizmente, não devolveu a vida à jovem francesinha de Blois.

Em 1909, Joana foi beatificada pela Igreja e, em 1920, foi canonizada pelo Papa Bento XV e nomeada Padroeira da França. A condenação de Joana D’Arc à fogueira representou a intolerância, a arbitrariedade e ou autoritarismo da Igreja naqueles idos do séc. XV, em que uma população cega pela ignorância, afluía às ruas extasiada para assistir a execuções públicas em fogueiras.

As cinzas da jovem mártir foram jogadas no Rio Sena, que corta a cidade de Rouen a caminho do Mar do Norte.

A Praça do Velho Mercado, palco da execução, conserva ainda hoje várias pedras remanescentes do início da colonização romana e testemunhas daqueles tempos de intolerância. Sentados naquelas pedras milenares, os turistas contemplam quase 2 mil anos de história com todos os erros e equívocos próprios do ser humano. Vale a pena visitar Rouen…

O fio da maracutaia

Há alguns dias tive o desprazer de ouvir uma pessoa, dirigente de um sindicato, tecer elogios à Dilma (PT), dizendo que ela havia reduzido 10% do seu salário de presidente, que era de R$ 27.000. Quando alguém fala alguma impropriedade por ignorância, perdoa-se, mas se o faz com segundas intenções, aí o caso é grave.

Os petistas tentam de todas as formas diminuir a dimensão do rombo que está ocorrendo no país. O Mensalão, o Lava-jato, o Petrorrombo e tantas outras maracutaias que envergonham a nação brasileira. Justificam-se dizendo que sempre houve roubo nas esferas de governo em nosso país. Ora, é claro que havia, mas nas proporções atuais “nunca jamais houve na história do nosso país”. A corrupção se alastrou como uma metástase cancerosa no organismo governamental. O país está enfermo. Enfermo, do latim “infirmus”, que não está firme. E que país estaria firme com a sua moeda em queda livre e afogando-se em um mar de lama?

Mas o interessante foi a pessoa enaltecer a Dilma Roussef por reduzir em 10% os seus vencimentos de R$ 27.000 como presidente. Será que a sindicalista não sabe ou não quer saber da existência dos “Cartões Corporativos” da Presidência da República? Com esses cartões, a presidente e os ministros pagam despesas de hospedagem, alimentação, vestuário, combustível e tantos outros gastos que seria enfadonho enumerar. Para se ter uma ideia, as despesas pagas com esses “cartões” atingiram em um ano mais de R$ 65 milhões. Só a Presidência da República gastou R$ 18,1 milhões distribuídos pelos seus diversos setores. Segundo o Portal da Transparência, “as informações são protegidas por sigilo, nos termos da legislação, para garantia da segurança da sociedade e do Estado”. Rsrsrsrsrsrs.

Esses cartões são utilizados por diversos portadores pertencentes a setores de Ministérios ou da Presidência da República, e vale ressaltar que quando os saques são realizados, não é disponibilizado no sistema a razão do gasto, então não é possível saber em que o dinheiro foi aplicado. Coisa horrível…!!!

Durante os quatro anos do último mandato do Lula, a gastança da administração da Presidência da República chegou à ninharia de R$ 21,4 milhões através do gentil “Cartão Corporativo”. No primeiro mandato do Lula, essas despesas haviam chegado a R$ 22 milhões.

Somente os gastos secretos da Presidência da República equivalem a aproximadamente  13% de tudo aquilo que o governo federal arcou com os cartões corporativos. No ano passado, a fatura anual dos Cartões Corporativos chegou a R$ 65,2 milhões.

Esses dados estão na internet e ao alcance de qualquer cidadão, mas é uma pena… uma pena mesmo, que ainda não estão na consciência de alguns brasileiros. Ou então, o que é mais provável, eles já têm consciência disso e estão mesmo é de má fé.

Na semana que passou, mais um elemento (ou devemos chamar de meliante?) chegou a propor, na sua delação premiada, a devolução de R$ 90 milhões. Pra devolver uma importância de tamanho vulto, eu fico imaginando de quanto deve ter sido a maracutaia…