Magrelo e o angu

Eram tempos piores, sem dúvida. Benefícios sociais e garantias trabalhistas eram uma utopia, presente apenas na cabeça de um ou outro idealista. A realidade era dura, como havia sido desde sempre. A elite ruralista se enriquecia à custa de trabalhadores mal remunerados, endividados pelas cadernetas de compras nos “armazéns” das fazendas e assistidos em suas doenças por farmacêuticos e ervas caseiras. Médicos eram só para as elites. Eram heranças de um tempo de nobres de brasões esmaecidos, de coronéis de patentes compradas e de vícios sociais cujos reflexos estão ainda presentes na vasta trama social da sociedade brasileira. Eram esses aqueles tempos…!

Ainda era madrugada e os dois amigos já estavam no batente da lavoura. Começavam a labuta por volta das 4 horas, quando o dia ainda estava escuro e esticavam o serviço até às 10 horas, quando o menino trazia os dois caldeirõezinhos com a boia. Dentro do caldeirão havia sempre a mesma comida: arroz, feijão, um pouquinho de taioba e um generoso pedaço de angu. Carne? Talvez uma vez por mês um pedacinho de frango.

Zeca Tião e Bibide trabalhavam juntos há muitos anos, desde os tempos de menino e todos os dias levavam com eles o Magrelo, um vira-latas magro como um fiapo. Enquanto Zé e Bibide roçavam o pasto ou capinavam a lavoura, Magrelo ficava deitado à sombra de uma ou outra das raras espertas dispersas pelo pasto. A fome naquele cão ossudo era visível em sua magreza, no andar desconjuntado e em seus olhos fundos e tristes. Reflexos do mau passadio dele e dos seus donos.

De hora em hora os dois companheiros interrompiam a faina, apoiavam o sovaco no cabo da enxada, cortavam o fumo de rolo com o velho e afiado canivete e começavam a arte de enrolar o cigarro naquela fina lâmina de palha de milho. Depois, lambuzavam as bordas da palha com a saliva grossa, passavam a palha pelos beiços, fechavam o cigarro e estava pronto o pito. Depois pitavam por algum tempo sentindo o aroma do fumo goiano que se espalhava pelo ar como um incenso. Só então pegavam o resto da guimba apagada, prendiam por trás da orelha, davam uma cuspida nas palmas das mãos e as preparavam de novo para o envernizado cabo da enxada ou da foice, conforme a precisão do momento.

As mãos de um trabalhador do campo são um documento da sua luta diária. Houve tempo em que os homens da lei, ao efetuarem uma batida policial, conheciam pelas mãos a diferença entre um trabalhador e um malandro.

Zé Tião e Bibide já estavam de estômago fundo quando o menino da boia chegou. Encostaram as ferramentas, refrescaram a garganta com a água fresquinha da moringa de barro e se prepararam para matar a fome. Magrelo olhava para o caldeirão de comida e salivava. O caldeirão não trazia surpresas, era sempre a mesma comida. Os dois homens saciaram a fome enquanto o magro cão os observava. Depois, Zé Tião pegou uma profunda lata com água até o meio e jogou dentro dela um pedaço de angu. Era o almoço do faminto cão. Para chegar ao angu, Magrelo tinha que beber os quase três litros de água que o separavam do alimento. O pobre cão, já enfastiado de tanta água, chegava até aquele pequeno pedaço de angu, que daria para enganar a sua fome até a próxima refeição…

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