OS VISITANTES HABITUAIS

Adellunar Marge

Quando eu era criança a gente aprendia que as aves do céu não plantam, não cultivam a terra, mas sempre têm o que comer. Inspirados, quase certo, em Mateus 6,26. As aves do céu e todos os animais selvagens, não são como os homens que foram condenados a ganhar o pão de cada dia com o suor do seu rosto. O homem coleta aquilo que semeou com dificuldade e zelo para saciar a sua fome.

O meu jardim, embora pequeno, é um exemplo disso em miniatura. Ocupa um espaço de pouco mais de quarenta metros quadrados, mas abriga, além das ixoras e outras plantas ornamentais, a Bené, uma jabuticabeira de pouco mais de vinte anos (uma adolescente para uma espécie de longa vida como ela) e a Vitinha, uma videira com pouco mais de quatro anos, mas que ostenta duas vezes por ano cachos de uvas dulcíssimas que se estendem por sua ramagem que sobe do jardim e circunda o terraço da minha casa.

Duas vezes por ano, tanto a Bené, com suas doces jabuticabas, como a Vitinha com suas saborosas uvas, atraem a cobiça de Sabiás, Sanhaços, Saíras, durante o dia e dos negros Morcegos, durante a noite.

Os Sabiás, pelo menos, pagam a sua refeição diária com o seu canto majestoso, que se inicia com o romper da aurora e se estende até o último raio do sol. Sei que o Sabiá possui uma variedade aproximada de cem cantos diferentes, baseados em uma média de dez notas. Talvez por um orgulho próprio, gosto de dizer que o canto mais belo é o do Sabiá que canta em meu jardim.

O certo é que duas vezes por ano os pássaros e os morcegos vêm e as frutas vão, sobrando pouco para mim. Eu sei que, como dizia aquela passagem bíblica citada lá atrás, os pássaros e os animais selvagens não preparam a terra, não a cultivam, mas sempre têm o que comer. Mas no meu jardim? Com o fruto do meu esforço e do suor do meu rosto? Pera aí…!

Então eu resolvi botar um pouco de ordem na casa. Primeiro pensei em uma armação de tela em volta da Bené para blindar as jabuticabas dos pássaros e dos Morcegos (os danados dos morcegos são praticamente cegos, mas não perdem uma investida contra uvas e jabuticabas graças ao uso do seu maravilhoso “sonar” que lhes compensa a deficiência visual). Telar a jabuticabeira poderia dar certo, mas seria impossível telar toda a extensa parreira. Foi aí que,  com um ataque repentino de “eco-humanismo”, pensei: Vai que, com a escassez dos alimentos naturais, com as queimadas e os desmatamentos, o Criador queira alimentá-los com os frutos do meu jardim…! Então tive uma idéia: dividir com os pássaros e os morcegos, visitantes habituais, a produção dos frutos. Mas como fazê-lo?

Bem, a produção da Bené, como é imensa, deixei aberta democraticamente a todos: pássaros, morcegos e humanos. Afinal eu não daria conta mesmo das jabuticabas que a Bené produz.

Com as uvas foi diferente. Neste mês de dezembro são cerca de oitenta cachos amadurecendo. Envolvi quarenta deles (a metade) com sacolas de papel. A metade desprotegida ficará com os pássaros e os morcegos. O grande problema são as Saíras, pequeninas, bonitinhas, mas ordinárias. Estragam mais do que comem, tanto uvas como jabuticabas. A sorte é que, mesmo ariscas como são, amedrontam-se com a presença dos imensos Sabiás que, mesmo sendo um casal só, impõem respeito aos demais pássaros. Talvez nem tanto pelo seu tamanho, mas, sobretudo pelo seu canto soberbo que ecoa a quadras de distância ou pelo seu título de “Pássaro Símbolo do Brasil”.

Este ano terei menos uvas para mim, mas pássaros e morcegos se fartarão das delícias do meu jardim…

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