O RIO MURIAÉ

Adellunar Marge

A solução do problema das enchentes do Rio Muriaé acabou ficando mesmo na conversa. Tanto se falou em soluções, em estratégias políticas e o escambau… E nada. Não adiantaram as promessas do Anastasia, a ineficiência do Pimentel e o regimento de políticos que pressupostamente se engajavam na nobre causa de acabar de uma vez por todas com um drama que, mesmo nos anos em que não acontece, povoa a mente dos muriaeenses de medo e preocupações. Principalmente a população ribeirinha que, na época das chuvas, dorme com um olho aberto e outro fechado… Alternadamente, em uma eterna vigília.

A esperança eram os trezentos milhões para as obras que, segundo os técnicos, os políticos e os profetas já estavam destinados. Seriam obras magníficas: o leito do rio seria rebaixado, suas margens alargadas em muitos pontos, parques temáticos seriam construídos em toda a extensão urbana do nosso Rio Muriaé. Ah..e tinha a represa de contenção, bem acima da cidade que regularia o ímpeto do caudaloso e violento rio na época das cheias. Tudo estava previsto para as maravilhosas obras que acabariam com as enchentes. Uma computação gráfica, feita com muita competência por renomado especialista da área, mostrava as belezas das obras, com tal nitidez e realismo, que tínhamos até vontade de entrar pela tela do computador e sentar às margens do nosso rio e contemplar como o homem, com o seu gênio criador, é capaz de transformar os desígnios da natureza em beleza e segurança.

Um amigo meu, proprietário rural conceituado, além de educado e paciente, vinha semanalmente à minha sala, na Chefia de Gabinete ou me encontrava pelas ruas da cidade e perguntava-me ansioso: “A obra sai mesmo… não é professor…?”. Preocupava-se o laborioso ruralista com a área da sua propriedade que seria indenizada e desapropriada para as obras da represa.

Eu nunca menti para esse senhor, pois acreditando com toda a minha convicção na boa fé dos governantes e políticos envolvidos na obra, garantia a ele, com a minha palavra, que a obra ia sair sim e nada poderia interromper o seu processo.

Faltava apenas a assinatura do Governador, como último ato daquela peça, para “startar”, como dizem os engenheiros, a magnífica obra. Os engenheiros normalmente não falam “começar”, preferem aportuguesar e conjugar o esquisito verbo “to start”, que significa justamente “começar” na língua inglesa. Pois foi na última semana do Governo Anastasia, quando fomos ao Aeroporto nos despedirmos dele que voltava a Belo Horizonte, que ele disse que seu governo já estava encerrando e que ele ia deixar a “assinatura” para o próximo Governador, o Pimentel. Naquele momento eu percebi que a obra não sairia do papel e percebi também que havia mentido para o honrado ruralista, para a minha família e para centenas de amigos, afirmando que as obras sairiam.

A Política, idealizada pelo gênio criador do povo grego era a arte de dirigir a “Polis”, que eram as “Cidades-Estado” no mundo grego. A ideia era magnífica, mas, infelizmente, o elemento para materializá-la era justamente o ser humano, com todas as suas mazelas, os seus desvios e os equívocos que sempre nos acompanharam. Por isso, o homem não conseguiu implantar a sua sonhada “Democracia” ou governo do povo, em sua etimologia.

Mas em compensação conseguiu criar com todo esmero a “Demagogia”, que é como “conduzir” (e às vezes nos piores sentidos), o sofrido povo.

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