Profissão de fé

Senhoras de azul cantavam
Rezando com muita fé.
Todas, em coro, louvavam
Jesus, Maria e José.

O padre paramentado,
à frente da procissão,
lançava um louvor cantado,
respondendo à oração.

E a procissão prosseguia
pela rua empoeirada,
com as filhas-de-Maria
rezando compenetradas.

As lanternas reluziam,
cada uma de um matiz,
enquanto os sinos batiam
na velha igreja matriz.

E a procissão prosseguia
Em seu passo compassado.
Pai-nossos e ave-Marias
por todos eram rezados.

“Com minha mãe estarei”
entoava a multidão.
“Na santa glória, um dia”
completava o sacristão.

Todo o povo da cidade
caminhando em procissão.
À frente, seguia o padre,
ao seu lado, o sacristão.

Reza a velha do rosário,
reza o velho desdentado,
a moça do relicário,
o coronel e o soldado.

A solteirona rezava
com ar de melancolia,
pelo amor que desejava
prá sua vida vazia.
Pelo filho, a mãe rezava,
e pro marido doente
e o velho terço gastava
naquela prece eloquente.

E a procissão prosseguindo
sob as estrelas brilhantes,
e as velas se consumindo
entre preces murmurantes.

Passou em frente ao sobrado
do Zequinha escrivão,
da casa do delegado
e do açougue do Romão.

Mas na rua da Roseira,
passando em frente ao Bordel,
as beatas rezadeiras
cobriram o rosto com o véu.

As moças do casarão,
debruçadas à janela,
contemplavam a procissão
que passava diante delas.

O casarão centenário,
Mesmo velho e desbotado,
Inda é palco de pecados
e de amores mercenários.

E os homens disfarçando
a malícia do olhar,
olhavam de “rabo de olho”
as formas da Lucimar.

O padre finge não ver
o olhar do sacristão.
Que luta para conter
a sua própria emoção!

Olhando fixamente
a imagem do Redentor,
procura tirar da mente
o pecado tentador.

As beatas se benziam
ante a medonha visão
das moças que alegres riam
de dentro do casarão.

Que mistério se revela
no andar da procissão,
sob a luz daquelas velas
e o rumor da oração.

Para onde vão seguindo?
O que esperam encontrar?
Que esperanças vão nutrindo
que os possa alimentar?

Tal mistério não entende,
quem o tenta decifrar.
Nem quem sábio se pretende,
solução há de encontrar.

Pois vida não é mistério
para o homem resolver,
mas dádiva de existência
que existe prá se viver.

E toda maledicência
que a outros apregoamos,
quase sempre é uma carência
de algo que desejamos.

Nessa luta inconsciente
costumamos censurar
aquilo que a nossa mente
tanto teima em desejar…

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